quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Capítulo VI


Eu não esperei muito para sair, logo em seguida. Vesti uma roupa qualquer, soltei o cabelo, lavei o rosto e desci para tomar o café que o hotel servia. Não era muito bom, como o que eu fazia na cafeteira que havia no quarto, mas eu não estava com a menor vontade de preparar um. O fato, é que eu saí para dar uma volta, para pensar. E não muito longe dali, no bar, estava a moto dele estacionada. “Droga!” pensei, era ali que eu ia ficar um pouco, por que ele teria que estar justamente lá? Já tinha me esquecido que fora lá que nos conhecemos e ele disse que relaxava com a música do local. Passei reto. Continuei andando, desta vez sem rumo, e pensando em qual caminho seguiria.
Eu já estava praticamente decidida, só faltava um pouco de força para abandonar a cidade. E era justamente isso que eu não tinha. Era como se eu tivesse criado um vínculo, tudo ali parecia me confortar, aliás, confortava-me. O clima ameno favorecia o tipo de roupa que sempre gostei de usar, e o vento tinha um cheiro puro, a cidade era limpa e tão pequena. Até nos bairros mais afastados havia aquele conforto que encontrava ali. Mesmo com muito menos estrutura, porém não chegava aos pés das grandes cidades ( que abrigavam tanta pobreza). Não sei porque, mas cidades assim sempre exerciam um poder sobre mim. Mas, eu não poderia. Veja, mal consigo deixar essa cidade agora, imagine se permanecer aqui? A verdade, é que eu deveria deixá-la o quanto antes, pois assim seria mais fácil continuar a minha vida. Quem sabe um dia, eu poderia voltar, ou convidar as pessoas que conheci aqui para uma viagem qualquer. Mas naquele momento, eu havia de ir embora. E foi o que me decidi.
A última coisa que faria ali, era me despedir de Antônio. Eu sabia que se fizesse antes de tudo, ele com certeza acabaria por me convencer a ficar. E tendo tudo pronto para ir, não haveria como eu ser convencida. Fui para o hotel, e comecei a arrumar minha mala. Haviam sacolas de compras atrás da porta, pois na semana anterior fui ao shopping com Antônio. Tirei as roupas da sacola e fui jogando-as na mala, quando caiu um objeto pequeno no chão – uma pulseira. Antônio me dera naquele mesmo dia, quando me pediu para não me esquecer dele, envolveu-me num abraço e puxou meu pulso, antes que pudesse puxá-lo de volta, ele colocou em mim aquela pulseira. Não era nada demais, era uma pulseira trançada, e em uma das tranças, uma pedrinha envolvida. Era muito bonita, e ele a amarrou no meu pulso no último dia em que nos vimos, antes da briga. Eu a tirei depois, pois não conseguia parar de pensar nele quando a olhava. De qualquer modo, não a coloquei de volta, e tornei a arrumar minha mala. Estava quase tudo pronto, as últimas coisas que faltavam era me despedir de Antônio e fechar tudo com o hotel. E eu havia de me preparar.
Saí do hotel com as minhas duas malas tamanho médio, e com a minha mochila favorita, “apenas”. Para uma pessoa só, até que era bastante coisa para se carregar. Fui andando em direção à casa dele. Era uma casa simples, de um andar apenas, janelas de madeira rústica, e com venezianas do lado de dentro. A casa era branca, sem muito atrativo em sua faixada, mas assim como tudo naquela cidade, era convidativa, ainda mais sabendo quem morava nela. Toquei a campanhia, ainda com receio de sua reação ao me ver indo embora. Eu tinha em mente o que era preciso, e eu sabia que este seria o melhor para mim. Mas martelava em minha cabeça saber que ele não achasse que fosse o melhor. Ele não queria que fosse assim. Na sua opnião aquilo não era o melhor para ele, e nem para mim. Mas não era. Eu não era uma boa mulher para ele, não estudei, não acharia um emprego fácil, não seria um bom futuro para ele, além disso, meu pscicológico não era um ds melhores: mal humorada, chata, sistemática e dependente. Não seria, nunca, uma boa ideia ficar comigo. Ele havia de entender isso.
Quem abriu a porta foi o homem que era dono dos meus pensamentos, deslumbrante até de pijama, com barba mal-feita e olhos cansados. Aqueles olhos azuis... Ah. Ele estava ali, parado diante de mim, fitando minhas malas e minha expressão que não transmitia exatamente o que sentia, eu estava serena ao seu ver, mas por dentro tudo desabava.
- O que é isso?
- Eu estou indo embora. Me desculpe.
O que ele fez foi inesperado: não houve tempo para reagir, envolveu-me num abraço apertado que até o coração mais gélido acalmaria. Sem me soltar, sussurrou “não” em meus ouvidos, e eu pude sentir o laço na garganta que ele controlava. Eu nunca vi um homem chorar, principalmente por minha causa, e aquilo doía tanto, que não pude evitar que meus braços o apertassem mais, e não quisesse soltar-me do abraço. Ele não aprecia querer me soltar também. As lágrimas escorriam de seu queixo, e eu podia sentí-las em mim algumas vezes. Mas eu não poderia voltar atrás.
- Eu realmente sinto muito. Eu queria ficar para sempre aqui. Queria ser para sempre sua. Queria ter para sempre esse sentimento que eu tô guardando comigo e compartilhá-lo contigo. Mas eu preciso...
- Não pode ir.
- Por que não?
- Eu naõ vou aguentar.
- Eu é que não irei aguentar. Não sei mesmo se conseguirei seguir em frente, não com todo esse peso que tá dentro de mim. Você achará outras pessoas, outras mulheres, eu posso garantir. Mas eu estarei apenas comigo, vagando.
- Por que não pode simplesmente ficar?
- Se eu ficar, eu estarei dependente de você para sempre.
- E que mal há nisso? Por que não pode ser minha? Por que não deixa pelo menos uma vez alguém cuidar de ti?
- Eu não posso prever o futuro, pessoas são instáveis, com qualquer abalo podem se perder, e se nos perdemos eu me perderei. Deixe-me explicar. Eu não posso continuar aqui, porque se continuar, ficarei presa. Eu quero ser livre, não quero depender de algo. Se sair daqui o quanto antes, será mais fácil partir. Está vendo o quão difícil está sendo agora? Imagine se continuasse. Tudo porque conheci você.
- Ainda não vejo qual o mal de permanecer aqui comigo até o fim.
- E se não ficarmos juntos para sempre? Para sempre não é algo fácil de acontecer. Se acabar, eu não sei se aguentarei. Se eu ficar, além disso, poderia ser um grande problema na sua vida. Eu não estudei, eu só te atrapalharia.
- E você acha que eu estudei? Tudo que sei hoje, eu li nos livros daquela biblioteca.
- Esse era o menor dos meus problemas. Ainda assim, tenho medo.
- Medo? Onde está a Luna, decidida e forte, que conheci?
- Ela também tem um lado medroso, e maior parte do tempo é ele que toma conta. Eu só cuido para que ele não o assuste.
- Fica comigo aqui, prometo que não vou deixar você. E vou cuidar para que não sinta medo.
- Eu... droga. Eu não posso! Me deixa ir?
- Não! Não dá.
Há muito já havíamos nos separado do abraço, e apenas discutíamos frente a frente.
- Por que simplesmente não deixa que eu vá, e continua sua vida? Por que não pode esquecer? A menina forte que conheceu não é quem você pensa, ela é fraca, ela é medrosa, ela é um peso.
- Eu aguentaria qualquer coisa tendo você.
- Olha isso não vai dar certo. Não vamos à lugar nenhum assim. Eu acho que eu deveria experimentar ir embora. E... se não der par continuar, eu volto. Mas, sinta-se livre para me esquecer.
- Eu vou esperar que você volte.
- Obrigada.

Capítulo V


Ele me encarou como se eu fosse a pessoa mais egoísta do mundo. E eu me senti assim. Mas, quem disse que apenas eu estava sendo egoísta? Eu planejei tudo para mim, meu sonho era esse: viver viajando por todos os lugares. Eu não queria abrir mão desse sonho, e esse era meu egoísmo. O seu, era querer que eu o abandonasse para ficar com ele. Eu não poderia fazer isso. Estava me decidindo, eu havia passado a “noite” inteira pensando justamente nesse ponto, procurei olhar pelos dois lados, e estava optando pelo meu. Não porque eu não estava mais apaixonada por aquele homem, pelo contrário, a cada dia que passava, eu me apaixonava mais. E era isso que eu não queria. Quanto mais tempo eu ficasse com ele, quanto mais eu ficasse naquela cidade, nem que fosse para brigar todo santo dia com ele, mais eu estaria me prendendo à ele e aquela cidade.
Foi por isso, por essa minha incapacidade de ser independente perto de um homem, que eu decidi que não poderia ficar mais ali. Eu queria viver sem precisar de alguém, e eu precisava dele, não para realizar minhas tarefas, nem para pagar minhas contas, ou algo do tipo, eu precisava dele emocional e fisicamente. Estávamos ali, parados naquele quarto de hotel, sem olhar para o outro, esperando uma resposta que só eu poderia dar. Naquele momento, aquela tensão pairava no ar, e eu quase não conseguia suportá-la. Eu precisava dar um fim naquilo tudo, e seguir em frente. Mas como? Eu não era forte e decidida o suficiente. Como eu conseguiria viver sozinha de novo, depois de tanto sentimento que guardei em mim ter sido jogado em uma só pessoa?
- Ei, você ainda tá aí?
- Claro que estou, você não está me vendo? – respondi irritada porque perdi minha linha de pensamentos.
- É, seu corpo está aí, mas e sua mente? Parece que você tá viajando. – ele riu, tentando decontrari, sem sucesso, revirei os olhos.
- Eu só estava terminando de me decidir – seu olhar demonstrou preocupação – se eu ficarei aqui, ou se continuo minha vida e vou embora.
Ele me fitou, sabia que qualquer coisa que dissesse agora, naõ poderia afetar a minha decisão. Ele sabia que eu era decidida, e mais do que isso, era teimosa. Olhei para ele, e ele por sua vez, esperava minha resposta. Mas eu não tinha ainda uma, pelo menos, não definitiva. Eu não poderia alimentá-lo com alguma esperança, mas não deveria bombardeá-lo com a minha ida.
- E então...? – ele queria alguma resposta.
- Não me decidi. Aliás, hoje seria meu dia de decisões, e você está me atrapalhando. Se importa em sair? – grossamente, me levantei e abri a porta, indicando para que saísse.
- Tudo bem. – ele baixou os olhos e saiu, olhou-me uma última vez, e não arriscou um beijo roubado.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Capítulo IV


Certamente, não haveria como ficarmos juntos para sempre ou por um longo tempo, mas eu não poderia viver esses dias sem ele, eu estava completa tendo-o ao meu lado, eu não podia deixá-lo. Aliás, não conseguiria. Decidimos que não iríamos nos evitar, não tinha jeito, se uma hora ou outra, acabaríamos cedendo a tentação, por que não ceder à todo tempo? Foi o que fizemos.
Vivíamos juntos, ele me apresentou alguns conhecidos, nenhum era realmente amigo, um deles era seu tio, o único parente dele. Todos os dias, todos mesmo, nos encontrávamos naquele lago, de manhã cedo, e conversávamos sobre tudo, nos abraçavamos, beijávamos. O dia todo estávamos juntos, acho que era alguma maneira de compensar o futuro, como não iríamos estar juntos por muito tempo, aproveitávamos o máximo desse tempo. Era uma correria louca para pegar o trem que nos levava até a praia, em uma outra cidade. Tudo era corrido, corríamos na praia, corríamos para ir ao bar, sempre de mãos dadas, apara não nos perdemos. Só parávamos no final do dia, quando ele me levava a uma cafeteria no centro da cidade, aconchegante. Tudo naquela cidade era aconchegante. A esta altura, já conhecia boa parte dela, o centro, todo o bairro em que estava o hotel, onde havia a biblioteca e o bar.
Mas, no final das contas, não era tudo as mil maravilhas, não. Sempre havia um tempo para uma discussão boba, para uns encândalos no meio da praia deserta, para uma garrafa quebrada no bar. O motivo era sempre o mesmo: ele tentava me convencer a todo custo de ficar ali, naquela cidade. Eu nunca pensei na possibilidade de parar. Parar em um lugar. Haviam tantos lugares à conhecer, e eu ficaria ali por causa de uma paixão que um dia acabaria? Talvez.
Passaram-se duas semanas. Por mais que eu estivesse apaixonada, é, eu estava apaixonada por ele, e por mais que estivesse, uma hora teria de acabar, uma hora teria de continuar e deixar pra trás. Eu não queria. Eu havia me decidido que levaria esta vida meio sozinha, que viveria nômade, não criaria laços. E agora, olha-me agora! Por Deus, onde fui me meter? Eu me encontrava pensando o tempo todo, em quem sabe ficar por ali, e o pior: encontrava mil motivos. O principal era Antônio. Aliás, quase um terço dos motivos levavam até ele. Mas além dele, eu achava a cidade linda. Sem dúvida a melhor que conhecera até então. Mas eu poderia conhecer melhores. Se me prendesse à aquele local, quem me garantiria que eu conheceria esses tais lugares?
Naquele dia, eu havia pedido um tempo para Antônio. Brigamos na noite passada, então eu quis pensar. Mas não haviam passado três horas que havia acordado, e ouvi as batidas ritmicas do causador da minha insônia. Eu ainda estava na cama, detonada, com a pior dor de cabeça, aquela que vem junto com uma ressaca. Demorei para atender, para ver se ele desistiria, mas não. Ele continuou batendo, até que gritou do lado de fora:
- Não me importo se não quer falar comigo, eu preciso te dizer algo.
Eu já devia esperar, essa conversa daria em outra discussão, e isso era o que eu menos queria naquele momento. Mas ele não parou, continuou batendo.
– Não importa se ainda está de pijama, na cama, com cabelo dasarrumado, por favor, me deixa falar contigo!
Eu não podia deixá-lo ali, gritando feito idiota do lado de fora de um quarto de hotel. Eu me levantei devagar, e quase caí com a tonteira que me deu de repente. Abri a porta e ele entrou agressivo, não era uma atitude agressiva para mim, mas ele não parecia conformado com alguma coisa. Sentei-me a beirada da cama, e esperei ele se acalmar. Ele andava de um lado para o outro, nervoso, e olhava para mim esperando que eu dissesse alguma coisa. Mas eu não poderia, eu não tinha o que dizer.
A briga de ontem, fora muito mais intensa do que todas as outras. Resolvemos beber naquele bar, e por lá ficamos até tarde da noite. Quando nos demos conta, já estávamos do lado de fora, atirando-nos palavras horríveis, haviam garrafas quebradas, e mentes completamente alteradas. Tudo estava se abalando, como se uma cristaleira tivesse tombado e todos os seus cristais estivessem caindo dentro de mim. Parecia não ter fim, e se houvesse, seria definitivo, haveria fim para nós. Cansado, ele se virou, e tentou subir na moto, mas eu o agarrei e o empurrei, gritando com ele, dizendo que não poderíamos ficar assim; mas ele não deu atenção, olhou para mim, e subiu na moto novamente. E eu o deixei ir. Eu entrei no hotel, com os olhos vermelhos de tanto segurar as lágrimas, e subi as escadas, ignorando o elevador.
Enxaqueca, remédios para dormir, pra acabar com a dor, café, lençóis, bagunça. Essa foi a minha noite. E aqueles remédios não funcionavam, eu não consegui sequer pegar no sono. Já eram quatro da manhã quando meu celular tocou. Não foi uma conversa longa, eu já sabia quem era. Eram pedidos de desculpa, murmúrios, tristeza, por traz de uma voz chorosa. De certo modo, eu o perdooei, e ele me perdoou, mas eu ainda estava magoada, e queria muito pensar, por isso, pedi a ele, que me deixasse sozinha naquele dia, pois seria bom para nós dois. Pelo visto, não foi assim que ocorreu.
Lá estava ele, agoniado, querendo dizer alguma coisa que não sabia o que era. Ele me fitava, encostado no guarda-roupas, e eu sentada na beirada da cama. Seus olhos estavam molhados, e as sombrancelhas caíam expressando seu arrependimento. Mas eu não conseguia olhá-lo da mesma forma. Estava com raiva, mas não conseguia odiá-lo. Eu queria terminar tudo, mas não conseguiria viver sem. Eu queria chutá-lo dali, mas eu acabaria por puxá-lo de volta. E era isso, essa contradição. Eu sabia que ele não diria nada, enquanto eu não dissesse primeiro, então, comecei da maneira mais banal e idiota possível:
- Oi.
- Me ajuda.
- O que?  
- Não fica assim, cê sabe o quanto estamos sofrendo.
Eu sabia. Eu tinha completa e absoluta noção do quanto aquilo estava me matando por dentro.
- O que espera que eu faça? Esqueça tudo? Para depois começar tudo de novo? Deixar esse assunto não resolvido ficar sempre batendo de frente, e nos destruir?
- Então por que não resolvemos?
- Por que não é tão simples. Não para mim. Se fosse por você, eu ficaria aqui, com você, e abandonaria todos os meus planos. Mas para mim, não é assim. Como eu disse: eu teria que abandonar tudo que planejei para mim.
- Eu sei o quanto sou egoísta, mas você não entende. Você não está entendendo que se você for, eu não vou conseguir continuar. Se você for, se o que você sente por mim, é o mesmo que sinto por você, você também não conseguiria seguir em frente.
- Eu sei que sinto por você, o mais intenso dos sentimentos, é que tudo me prende à você, e tudo me faz querer soltá-lo, por que se eu continuar, eu vou me perder.
- Por que não deixar então? Por que não se permite ser minha?
- Por que eu quero ter o controle de mim.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Capítulo III


Não sei o que me deu para beijá-la assim tão de repente. Provavelmente a assustei, que idiota eu fui. Mas, eu não me contive, quando nossos lábios se tocaram, ela não hesitou, ela deixou que acontecesse, talvez não tenha sido tão ruim quanto pensei. Eu gostaria de encontrá-la mais uma vez, mas não sei como aparecer no hotel em que está e dizer “oi”. Ela tinha dito que hoje iria até a biblioteca, será que consiguiria encontrá-la lá?
Foi o que fiz. Ás três horas da tarde, fui até a biblioteca e esperei-a num lugar que tivesse visão de toda a entrada. Conferi antes, para ver se ela já não estaria lá, procurei na seção de poesia, de romances, literatura clássica, em quase todas, mas pelo visto ainda não chegara. Esperei, já eram quatro horas. Peguei um livro para ler, e esperei mais alguns minutos, ao que parecia, ela não chegaria, e eu não poderia passar o dia inteiro numa biblioteca. Então, resolvi passar em frente ao seu hotel. Parei ali, na calçada, e olhava ora para a portaria, ora para as janelas que davam vista para a rua: nem um sinal dela. Pensei seriamente em entrar e procurar pelo quarto em que estava hospedada, mas não tive coragem o suficiente. Será que ela já teria ido embora? Não pode ser, ao que me lembrava, Luna dissera que passava cerca de dois meses em cada lugar, e só estava ali há uma semana apenas. Então, deixei para o dia seguinte repetir a mesma trajetória de hoje, iria para a biblioteca as três horas novamente, de amanhã.
Mas por que cargas d’agua não peguei um telefone, um e-mail ou qualquer coisa?! Se havia gostado tanto assim de uma garota, tão rápido, por que não pensei em lhe pedir um próximo encontro? Acho que pensei demais só nela. Digo, não pensei no dia seguinte, pensei apenas no tempo em que estava com ela. Que droga.
Eu optei por sair dali, tomar um banho em casa, e tentar dormir logo, para que o dia seguinte chegasse mais rápido, mas eu não consegui. Revirei-me na cama mil e uma vezes, e quando eram uma e meia da manhã, finalmente peguei no sono.
Terça-feira enfim chegara, e eu ainda estava na cama às dez horas da manhã, pois não tive uma boa noite de sono. Apressei-me em tomar uma ducha, e arrumei-me com muito capricho, finalizando com um sorriso para o espelho, esperando tarzer alguma confiança. “Que coisa de adolescentes!”, pensei. E realmente estava agindo como um: sem coragem para falar com a garota que me encantou. Subi na moto, e fui para a biblioteca. Como fiz no dia anterior, sentei-me no mesmo lugar que desse vista para a estrada, e que ao mesmo tempo fosse discreto o bastante para ela não me notar.
Desta vez, não demorou muito para que chegasse. Estava indecisa entre poesia e romance, o que era bem a sua cara. Antes que me aproximasse, fitei a garota que estava tomando conta da minha cabeça: cabelos médios até os ombros, com pouco volume, ondulados e castanhos; os rosto fino e mais arredondado, lábios reluzentes, enfeitados com brilho labial; os olhos castanhos, com cílios volumosos, talvez devido ao rímel, mas com pouca maquiagem. O corpo era magro, com poucas curvas, mas era leve, e o vestido sem estampa preto que usava junto com um cardigã vermelho de linha, davam a ela uma leveza e inocência perfeitamente combinadas. Esperei até que entrasse na seção que desejava, e dei a volta, entrando na mesma seção, pelo lado oposto. Olhei para ela de perto, e não pude conter o sorriso que surgiu ao encontrar o olhar dela e ver que ela também sorria. Ela tinha o sorriso mais delicado que tivera visto em toda minha vida, os dentes perfeitamente alinhados, com lábios macios e doces. Foi o que pude provar no beijo que acabei lhe dando. Enquanto eu me perdia mais uma vez nos olhos dela, não percebi que vinha se aproximando a dona dos meus pensamentos, e quando finalmente acordei, ela já vinha me cumprimentando:
- Oi... – ela estava tímida, mas ainda sorria.
- Oi!
- Eu te procurei aqui ontém, mas não encontrei. Vim lá pelas 7 horas da noite.
- Droga. – sussurrei para mim.
- Oi?
- Nada. Eu passei por aqui, pensei que poderia te encontrar, mas vim mais cedo, acabamos por nos desencontrar.
- É...
-“Ei, me passa seu telefone?”- dissemos ao mesmo tempo, depois de alguns segundos em silêncio. Rimos.
- Claro, mas o meu vai ter que ser o celular, né.
- Sim...
Trocamos os celulares. Entreolhamo-nos, e eu cheguei a pensar em chamá-la para sair naquele exato momento, mas desisti, porque temia uma rejeição. Que idiota, como não tomei a iniciativa, ela, madura e decidida, criou coragem e me chamou:
- Ei, você por acaso não estaria livre agora, estaria? – ela me olhou um pouco sem-graça.
- Estou sim.
- Quer ir tomar um suco lá fora?
Eu aceitei ligeiramente, e parecia uma criança, de tão entusiasmado que estava. Ela não parecia se incomodar com essa minha felicidade, não parecia nem notar muito, estava sorrindo, e andava calmamente rumo à lanchonete próxima a aquela biblioteca em que estávamos. Ela foi andando silenciosamente, e de longe já escolhera um lugar, nos sentamos, e logo veio uma mocinha pouco luminosa nos atender. A garota vestia um jeans surrado, o cabelo meio tingido de preto com mechas roxas, preso num rabo de cavalo, a camisa branca estava encoberta pelo enorme avental da lanchonete. Ela era baixinha, não devia ter mais que 17 anos, mas não parecia muito satisfeita com a vida. Luna olhou para o cardápio e rapidamente bateu o olho no seu suco favorito:
- Maracujá. Hummm, por favor, um suco de maracujá. E pra você? – ela me perguntou.
- Vou querer um suco de pêssego, por favor.
- Certo. – a mocinha anotou ligeira os pedidos, e foi embora.
­­­Nós conversamos normalmente, não falamos sobre aquela noite, mas talvez fosse melhor, poderia trazer um clima diferente para a conversa, caso fosse lembrado. Ela ria das minha piadas, e eu me impressionava com isso, eu sabia que não eram boas. Talvez ela ria por simpatia, ou as achava tão idiotas que acabavam sendo engraçadas. Não demorou muito para que terminássemos o suco e junto, o assunto. Ficamos nos olhando e sorrindo, sem muita coisa a dizer. Até que ela se pronunciou:
- Eu acho melhor ir.
- Mas já? Temos tanto a conversar, não tenho muitos planos agora.
- Eu sei, nem eu, mas me deu um sono, e acho melhor eu me descansar. Tenho alguns pensamentos à organizar, também.
- Entendo. Posso levá-la até o hotel?
- Ah, não precisa. É logo ali, eu posso ir andando.
- Se não se incomoda...
- Obrigada, mesmo assim.
Não tinha mais o que dizer, ela iria agora, e eu deixaria. Eu precisava tê-la, mas algo me dizia que não daria certo. Ela iria embora em semanas, e talvez nunca mais eu a visse. Eu queria dizer alguma coisa, pedir para ficar, puxá-la para meus braços e envolvê-la. Eu queria beijá-la mais uma vez, sentir o doce daqueles lábios, mas eu sabia que não poderia. Eu queria algo que não conseguiria ter.
Mas ela me surpreendeu. Essa mulher, decidida, tomava as suas atitudes sem pensar muito, se virou para mim e selou-me os lábios. Na ponta dos pés, ela precisou ficar, e assim que desceu, fitou-me, esperando alguma resposta. Não me contive. Eu simplesmente a beijei. De novo. E de novo. Não parávamos, não conseguíamos. Pequena, ficava na ponta dos pés, e eu a levantei pela cintura. Não conseguimos evitar essa atração, quando nos soltávamos, entreolhávamo-nos e retomávamos o beijo. Até que ela parou. Ela literalmente me empurrou, e a apenas um palmo de distância, me sussurou:
- Por que está fazendo isso?
- Isso o quê?
- Invadindo-me. Não diga que não me entendeu. Você me beijou, eu te beijei, e nem sequer nos conhecemos. Eu não poderia, eu não posso ceder assim.
- Então resista. Porque eu não consigo. Eu preciso.
- Eu não posso, não poderia me apaixonar por você, que droga.
- Por que não? Me diga. Por que não poderíamos ficar juntos?
- Eu nunca disse isso.
- Mas eu sei que não poderíamos, você viaja pra lá e para cá, vive dizendo adeus pra as pessoas que conhece, encanta e depois as deixa.
- E é exatamente por isso que não poderíamos. Se você sabia, por que perguntou?
- Porque pensei que poderia haver alguma maneira.
- E há.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Capítulo II


Saímos daquele bar e me surpreendi ao perceber que o Sol começaria à nascer em minutos, olhei o relógio e vi que passei um bom tempo conversando com aquele estranho, cujo ainda nem sabia o nome , sobre outras coisas além da música; já eram quase 6 horas da manhã. Ele subiu na moto que era dele, e indicou para que eu subisse, coloquei a minha mochila nos dois ombros e subi.
Tive que me segurar no corpo dele, achei que daria para me segurar apenas no banco, mas minha mochila pesando nas costas e a velocidade que íamos, foi preciso. Em apenas 5 minutos chegamos ao destino: ao que parecia, um prédio antigo. Saí da moto e ajeitei a mochila nas costas, e ele me apresentou o local. Era a biblioteca municipal. Ficava aberta 24 horas, naquela cidade, não era preciso um controle para os livros, pois a literatura era bem estimulada e todos tinham um respeito com bibliotecas e principalmente com os livros. Entretanto, não era possível evitar que de vez em quando um pequeno desaparecimento de um ou dois livros acontecesse. Ele deu alguns passos em direção ao prédio, mas notou que eu havia ficado para trás, deslumbrada com a beleza da biblioteca.
- Você vem? – disse se aproximando, e deu uma leve puxadinha no meu braço.
- Ah, claro. – respondi, um pouco envergonhada pela minha distração.
Por dentro, era ainda mais impressionante: livros de todos os tipos, romances, poesias, ação, aventuras, mistérios, eram de todos os tipos mesmo, cada seção possuía duas estantes inteiras com um tipo de livro. Era enorme, livros por todos os lados.
Ele pegou um livro de crônicas, e ao que parecia, já o conhecia bem. Disse que já havia terminado por ali, e perguntou-me se queria pegar algum livro. Respondi que no dia seguinte passaria aqui e escolheria alguns, pois devorava livros em um dia apenas,quando não havia algo mais oportuno à fazer. Deixamos a biblioteca, e ele me levou até a margem de um lago. Haviam alguns troncos deitados, deixados lá para servir de assento, e o lago brilhava com o reflexo do Sol, que já começava a nascer. Ele se sentou ali mesmo, naqueles troncos, e eu me sentei a sua frente, em outro tronco. Tirou da mochila que trazia, o livro, e ergueu-o para mim, eu o olhei me perguntando o que ele queria que fizesse.
- Leia – apontando para a crônica “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector – é um texto agradável, eu amo vir ler aqui, torna a leitura ainda mais bela sendo neste horário.
- Posso saber o seu nome? Não sei ainda...
- Ah! Nossa, eu realmente esqueci dessa parte fundamental de qualquer relacionamento – ele riu – me desculpa. Me chamo Antônio. – e sorriu sem jeito. – E você...?
- Me chamo Luna...
- É um lindo nome. Minha melhor amiga no colegial se chamava Luana, mas eu insistia em chamá-la de Luna, é mais suave, e combinava mais com ela. Depois que saímos da escola, cada um seguiu seu caminho, às vezes encontro com ela, mas cê sabe, quando você se separa de uma pessoa, perde-se toda aquela intimidade que se tinha. Crescemos, tomamos outros interesses, conhecemos outras pessoas... – ele parou por alguns segundos – e por fim, aquela amizade não consegue mais ser restaurada. O certo é deixar, e seguir em frente.
- Nunca terei um problema como esses. Viajo de cidade em cidade sozinha, não costumo conhecer muitas pessoas, nem me envolver.
- Uau. É uma vida um pouco solitária, naõ acha?
- Tem suas vantagens.
- Como o quê?
- Bom, pra começar, são lugares lindos, conhece-se várias culturas, aproveita-se de tudo um pouco de cada local. E não preciso me decepcionar com as pessoas, ou causá-las algum mal, já que não conheço muita gente.
- De certa forma... -  ele pareceu um tanto decepcionado depois de dizer que não costumo me envolver, e então tentei contornar a situação, e fazê-lo exibir aquele sorriso lindo que possuía. – Mas, pra ser sincera, você é uma das poucas pessoas que conseguiram se aproximar, e não se afastaram rapidamente. Digo, estou gostando de você. – sorri, e o olhei de uma maneira diferente, mas logo desviei.
Silêncio. Ele sorriu, mas não disse nada, apenas olhou para baixo, e pensativo, ficou desenhando com um graveto no solo meio arenoso da margem. Quando pensei em me despedir, mas até marcar um novo encontro, ele levantou o rosto e lembrou-se do que viemos fazer ali:
- Ei, acabamos nos esquecendo de ler os textos, por favor, leia o seu, em seguida lerei um também...
- Hum, tá bem. – peguei o livro e comecei – “ Felicidade clandestina”... “Ela era gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. [...]”
Fui lendo e lendo, sem parar, e ele sorria bobo, sem motivo aparente para tal sorriso, e observava-me durante a leitura. Por fim, acabei, e ele aplaudiu.
- Não entendi, tudo que fiz foi ler.
- Eu sei, mas você extremamente bem, poderia recitar poesias na frente de vários, em bares, e sem problema, ganhar uns bons aplausos e elogios. Lê com alma e entonação.
- Obrigada...  – fiquei envergonhada, e para quebrar aquele clima, o convoquei para ler também – agora pode escolher o seu.
- Ah, eu já escolhi. Chama-se “O amor por entre o verde” do Vinícius de Morais, é um de meus favoritos.
- Nunca li, vamos que assim eu o conheço.
- “O amor por entre o verde”... “Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. [...]”
E foi lendo e lendo, com a sua voz macia, dançava em meus ouvidos acariciando-me a face, o texto era belo, e sua leitura o fazia mais belo ainda. “É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado...”. A frase me tocou lá no fundo. Sabia que com essas viagens, abandonei minha chance de viver normalmente, ter um amor, casar-me, sabia que viajando assim, não encontraria o meu “ser verdadeiramente amado”. Olhei para Antônio, e sorri. Entendi o porquê daquele sorriso dele, anteriormente, estava sorrindo da mesma maneira agora. Eu estava gostando, estava me divertindo com ele, mal conhecera ele e já estava gostando, realmente gostando dele. O texto foi terminado, e eu pude me ouvir aplaudindo, foi involuntário. Ele me disse que já era hora de voltar para seu prédio, ficara fora o dia inteiro no dia anterior, e tinha algumas coisas para fazer. Concordei, eu já estava com sono, e precisava arrumar algumas fotos e anotações num dos meus cadernos de viagem. Ele me ofereceu uma carona até o hotel que estava, e me perguntou onde era.
- Ao lado do bar. – sorri – por isso vou lá frequêntemente.
- Ah, sim. Talvez passe por lá um dia para te encher um pouco a paciência. – riu.
- Não seria uma má ideia.
- Vamos?
Subimos na moto e me agarrei, sem hesitar, ao seu corpo, e apoiei o resto de meu corpo nas suas costas, senti sua respiração vacilar um pouco, e entendi que o incomodei, e me levantei, mas ele balançou a cabeça, e me disse apenas: - Volte.
Na portaria no hotel ele me deixou, eram 9 horas da manhã. Pensei que apenas eu sairia da moto, e me despediria com um aceno. Mas ele se levantou e caminhou em minha direção. Me assustei em pensamento, e não deixei que eles afetassem minha expressão. Ele encarava meus olhos, e antes que eu pudesse perceber, segurou minha mão, e me puxou para um beijo. Deslizei minha mão das suas costas e segurei sua nuca, e ele segurou minha cintura levemente. O beijo durou algo mais que um minuto apenas, ao passo que se intensificava, ele apertava meu corpo contra o dele, causando-me borboletas no estômago. Ao nos soltarmos, ele me olhou sem expressão definida, me pediu desculpas, despediu-se com um beijo na bochecha e andou até a moto. Sem reação, não saí do lugar até que ele desaparecesse naquela rua plana cercada por prédios e casas. Me virei lentamente, e entrei no hotel.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Capítulo I


Viajava para qualquer lugar, desfrutava de todo tipo de paisagem, degustava um pouco de cada cultura, deslumbrava-me com a quantidade de pessoas que cabiam em um bar tão pequeno. Tão pequeno, tão escuro, tão rústico, ao mesmo tempo, tão convidativo. Naquele bar, tocavam bandas de que ninguém ouvira falar, bandas alternativas com tanto tempo de estrada, e tão pouco reconhecidas. O lugar era um tipo de santuário da música: por todos os cantos, paredes, prateleiras e estantes, discos, pôsteres, objetos, panfletos e camisas eram espalhados, e quase não havia mais espaço para algo a mais, porém, sempre dava-se um jeito de uma banda qualquer deixar sua marca por ali, nem que fosse no chão, no teto, e até no banheiro.
E foi naquele bar, numa de minhas viagens mais simples, numa cidadezinha qualquer, que conheci o protagonista da melhor história que vivi. Não, não poderia ter sido uma história de amor, acredito que não tenha sido tudo isso. Foi intenso, não posso negar. Houve aquele sentimento fervoroso, que aquece até a alma mais fria, que invade todo o seu corpo até que explode num beijo. Paixão foi o que aconteceu. No meio de tanta bagunça, eu me apaixonei.
Era véspera de Natal, e apenas aos 23 anos, já não tinha ninguém para passar a data. Não era mesquice minha, eu realmente não tinha ninguém. Viver assim, viajando por todos os cantos sozinha, acompanhada apenas da própria loucura, não era lá aquelas maravilhas. Foi preciso abandonar tudo, deixar pra trás família, casa, amigos, amores, e enfim, pesos do passado. Desde  então, vem sido assim: de cidade em cidade, procurando não envolver-me com as pessoas, mas algumas vezes, acabo por me envolver. Como aconteceu na tal véspera de Natal que estava mencionando.
Apressei-me em encontrar minha mesa favorita do bar, dois lugares, perto o suficiente do balcão e do palco, num canto com boa iluminação para ler um livro ou fazer palavras cruzadas, como era de costume fazer. Não era muito de beber, em poucas situações o fazia, e não estava com cabeça para enfrentar uma ressaca em pleno Natal, pedi apenas uma coca-cola. As garçonetes já conheciam a garota que sempre se sentava naquele mesmo lugar, e numa data tão inusitada para estar sozinha, apressaram-se em perguntar:
- Não é uma data muito estranha para se estar sozinha, mocinha? – Lídia, sempre muito prestativa, trouxe-me, junto com o refrigerante, o famoso prato de peixe que lá preparavam com bastante êxito – É por conta da casa. –Sorriu.
- Sim, obrigada –agradeci  pelo peixe – mas não é por opção que estou aqui. Quer dizer, adoro este lugar, mas é o único que conheço, então é mesmo por falta de opção. – Respondi tentando parecer tão simpática quanto Lídia, mas com esse meu desajeito costumeiro, soou como grosseria. – Desculpe, não quis parecer arrogante.
- Andar sozinha assim, não deve lhe trazer um dos ares mais sociáveis que se pode ter, não se preocupe,  eu entendi de certa forma. – Como sempre fazia, despediu-se com um sorriso e um aceno, tinha mais coisas a fazer do que ouvir as besteiras que costumo dizer.
Comi aquele peixe com tanto gosto que até me subiu aquela satisfação, a música estava ótima, e naquela hora, até que não me incomodava tanto estar sozinha. Eram quase  duas horas da manhã, e eu já estava pensando em voltar para o hotelzinho que estava hospedada, mas um rapaz aproximou-se e pediu para se sentar ali. Assenti, com um sorriso torto, e ele se pronunciou:
- Não haviam muitos lugares sobrando, e este, não é uma cantada, moça, parecia-me o mais agradável. – a voz era grossa, mas era suave.
Olhei a volta, duas mulheres sentadas no balcão, ambas com cabelos sedosos, seios fartos e rostos sedutores. Mais à esquerda, três homens bem afeiçoados, bebiam e riam numa mesinha com cinco lugares. E logo em frente ao palco, uma mesa vazia. O que traria aquele homem a umlugar como esse bar, e justamente à minha mesinha, tão sem-graça, em pleno Natal? E ainda: a volta, tantas opções mais atraentes, como as belas moças e os homens, por que justo a minha companhia parecia mais agradável? No fim, não disse nada, afinal, não é sempre que um homem assim senta-se a sua frente e puxa conversa, bom, pelo menos no meu caso, não é assim. Observei-o: moreno, cabelo liso, meio jogado com um comprimento médio, olhos azuis e uma barba mal-feita que era um charme. A camisa preta, meio aberta com o peito levemente à mostra. Digamos assim, um homem um tanto atraente. Sorri, mas não arrisquei dizer algo, poderia estragar uma conversa talvez prazerosa, caso deixasse esse meu desajeito falar. Deixe que falasse algo primeiro.
- Então, você costuma vir muito aqui? – aquele homem realmente não estava me cantando?
Olhei para ele, com um ar meio debochado, ainda estava achando um pouco estranho o que ele vinha dizendo, mas tomei um ar mais natural e tentei responder normalmente:
- Venho frequentado este bar tem algumas semanas, não sou da cidade, é um dos únicos lugares que conheço, e de longe, o mais agradável.
- Gosto muito daqui, a música que tocam é a melhor parte, é bem aconchegante. – Ele não parecia se interessar diretamente em mim, estava mais interessado na conversa, talvez tenha sido por isso, deve ter achado que eu era uma pessoa boa para conversar, apenas isso. – Você gosta desse tipo de música? Digo, rock, grunge, é o seu estilo?
- É o que mais gosto, me traz paz. Parece estranho, porque é um tanto agitado, mas me acalma, a melodia, a letra, o conjunto todo traz um boa sensação. – Ele me olhou de maneira estranha. Droga, já tinha dito alguma besteira.
- Você lê pensamentos? Porque é exatamente o que acontece quando venho aqui. Eu venho aqui procurando exatamente essa sensação. – Ele sorriu. Foi um sorriso? Ele não estava rindo de mim? Poderia ser um deboche...
- Hum. Não leio. – Olhei para ele intrigada, não havia outro jeito de descobrir se era um deboche sem ser perguntar. Não tinha nada na sua expressão que comprovasse uma brincadeira, ele parecia convicto ao afirmar sobre a música. – Você está brincando comigo, não é?
- Não! Claro que não, é realmente o que disse, esse lugar me acalma. Pareceu uma brincadeira?
- Estou acostumada a dizer o que penso e acabar  julgada como esquisita. É de costume que debochem do que digo. Já não ligo, é o meu normal. Sabe? É o meu normal ser anormal. – Sorri sem jeito, estava dizendo besteiras de novo, contando da minha vida para um completo estranho.
- Você se parece demais comigo... o jeito como fala, é quase como me sinto na maior parte do tempo. Sei que parece estranho, mas posso lhe mostrar um lugar?
- Realmente é estranho. Não é uma tentativa de me levar pra cama ou algo assim, é? – Disse aquilo brincando, mas a sua resposta me surpreendeu.
- Não arriscaria perder uma moça como você na primeira noite. Eu espero só um beijo roubado por enquanto. – Ele riu. Acho que era apenas uma brincadeira. – Vamos?
Eu ri antes de responder, confesso que me assustei com essa resposta. Estaria ele interessado em mim? Não importa. Eu não pensei muito antes de aceitar, era a primeira pessoa que realmente me chamou a atenção por aqui, e acho que não faria mal algum sair para conhecer um novo lugar.