Saímos daquele bar e me surpreendi ao
perceber que o Sol começaria à nascer em minutos, olhei o relógio e vi que
passei um bom tempo conversando com aquele estranho, cujo ainda nem sabia o
nome , sobre outras coisas além da música; já eram quase 6 horas da manhã. Ele
subiu na moto que era dele, e indicou para que eu subisse, coloquei a minha
mochila nos dois ombros e subi.
Tive que me segurar no corpo dele,
achei que daria para me segurar apenas no banco, mas minha mochila pesando nas
costas e a velocidade que íamos, foi preciso. Em apenas 5 minutos chegamos ao
destino: ao que parecia, um prédio antigo. Saí da moto e ajeitei a mochila nas
costas, e ele me apresentou o local. Era a biblioteca municipal. Ficava aberta
24 horas, naquela cidade, não era preciso um controle para os livros, pois a
literatura era bem estimulada e todos tinham um respeito com bibliotecas e
principalmente com os livros. Entretanto, não era possível evitar que de vez em
quando um pequeno desaparecimento de um ou dois livros acontecesse. Ele deu
alguns passos em direção ao prédio, mas notou que eu havia ficado para trás,
deslumbrada com a beleza da biblioteca.
- Você vem? – disse se aproximando, e
deu uma leve puxadinha no meu braço.
- Ah, claro. – respondi, um pouco
envergonhada pela minha distração.
Por dentro, era ainda mais
impressionante: livros de todos os tipos, romances, poesias, ação, aventuras,
mistérios, eram de todos os tipos mesmo, cada seção possuía duas estantes
inteiras com um tipo de livro. Era enorme, livros por todos os lados.
Ele pegou um livro de crônicas, e ao
que parecia, já o conhecia bem. Disse que já havia terminado por ali, e
perguntou-me se queria pegar algum livro. Respondi que no dia seguinte passaria
aqui e escolheria alguns, pois devorava livros em um dia apenas,quando não
havia algo mais oportuno à fazer. Deixamos a biblioteca, e ele me levou até a
margem de um lago. Haviam alguns troncos deitados, deixados lá para servir de
assento, e o lago brilhava com o reflexo do Sol, que já começava a nascer. Ele
se sentou ali mesmo, naqueles troncos, e eu me sentei a sua frente, em outro
tronco. Tirou da mochila que trazia, o livro, e ergueu-o para mim, eu o olhei me
perguntando o que ele queria que fizesse.
- Leia – apontando para a crônica
“Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector – é um texto agradável, eu amo
vir ler aqui, torna a leitura ainda mais bela sendo neste horário.
- Posso saber o seu nome? Não sei
ainda...
- Ah! Nossa, eu realmente esqueci dessa
parte fundamental de qualquer relacionamento – ele riu – me desculpa. Me chamo
Antônio. – e sorriu sem jeito. – E você...?
- Me chamo Luna...
- É um lindo nome. Minha melhor amiga
no colegial se chamava Luana, mas eu insistia em chamá-la de Luna, é mais
suave, e combinava mais com ela. Depois que saímos da escola, cada um seguiu
seu caminho, às vezes encontro com ela, mas cê sabe, quando você se separa de
uma pessoa, perde-se toda aquela intimidade que se tinha. Crescemos, tomamos
outros interesses, conhecemos outras pessoas... – ele parou por alguns segundos
– e por fim, aquela amizade não consegue mais ser restaurada. O certo é deixar,
e seguir em frente.
- Nunca terei um problema como esses.
Viajo de cidade em cidade sozinha, não costumo conhecer muitas pessoas, nem me
envolver.
- Uau. É uma vida um pouco solitária,
naõ acha?
- Tem suas vantagens.
- Como o quê?
- Bom, pra começar, são lugares lindos,
conhece-se várias culturas, aproveita-se de tudo um pouco de cada local. E não
preciso me decepcionar com as pessoas, ou causá-las algum mal, já que não
conheço muita gente.
- De certa forma... - ele pareceu um tanto decepcionado depois de
dizer que não costumo me envolver, e então tentei contornar a situação, e
fazê-lo exibir aquele sorriso lindo que possuía. – Mas, pra ser sincera, você é
uma das poucas pessoas que conseguiram se aproximar, e não se afastaram
rapidamente. Digo, estou gostando de você. – sorri, e o olhei de uma maneira
diferente, mas logo desviei.
Silêncio. Ele sorriu, mas não disse
nada, apenas olhou para baixo, e pensativo, ficou desenhando com um graveto no
solo meio arenoso da margem. Quando pensei em me despedir, mas até marcar um
novo encontro, ele levantou o rosto e lembrou-se do que viemos fazer ali:
- Ei, acabamos nos esquecendo de ler os
textos, por favor, leia o seu, em seguida lerei um também...
- Hum, tá bem. – peguei o livro e
comecei – “ Felicidade clandestina”... “Ela era gorda, sardenta e de cabelos
excessivamente crespos, meio arruivados. [...]”
Fui lendo e lendo, sem parar, e ele
sorria bobo, sem motivo aparente para tal sorriso, e observava-me durante a
leitura. Por fim, acabei, e ele aplaudiu.
- Não entendi, tudo que fiz foi ler.
- Eu sei, mas você extremamente bem,
poderia recitar poesias na frente de vários, em bares, e sem problema, ganhar
uns bons aplausos e elogios. Lê com alma e entonação.
- Obrigada... – fiquei envergonhada, e para quebrar aquele
clima, o convoquei para ler também – agora pode escolher o seu.
- Ah, eu já escolhi. Chama-se “O amor
por entre o verde” do Vinícius de Morais, é um de meus favoritos.
- Nunca li, vamos que assim eu o
conheço.
- “O amor por entre o verde”... “Não é
sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos
que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque.
[...]”
E foi lendo e lendo, com a sua voz
macia, dançava em meus ouvidos acariciando-me a face, o texto era belo, e sua
leitura o fazia mais belo ainda. “É um tal milagre encontrar, nesse infinito
labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado...”. A frase me
tocou lá no fundo. Sabia que com essas viagens, abandonei minha chance de viver
normalmente, ter um amor, casar-me, sabia que viajando assim, não encontraria o
meu “ser verdadeiramente amado”. Olhei para Antônio, e sorri. Entendi o porquê
daquele sorriso dele, anteriormente, estava sorrindo da mesma maneira agora. Eu
estava gostando, estava me divertindo com ele, mal conhecera ele e já estava
gostando, realmente gostando dele. O texto foi terminado, e eu pude me ouvir
aplaudindo, foi involuntário. Ele me disse que já era hora de voltar para seu
prédio, ficara fora o dia inteiro no dia anterior, e tinha algumas coisas para
fazer. Concordei, eu já estava com sono, e precisava arrumar algumas fotos e
anotações num dos meus cadernos de viagem. Ele me ofereceu uma carona até o hotel
que estava, e me perguntou onde era.
- Ao lado do bar. – sorri – por isso
vou lá frequêntemente.
- Ah, sim. Talvez passe por lá um dia
para te encher um pouco a paciência. – riu.
- Não seria uma má ideia.
- Vamos?
Subimos na moto e me agarrei, sem hesitar,
ao seu corpo, e apoiei o resto de meu corpo nas suas costas, senti sua
respiração vacilar um pouco, e entendi que o incomodei, e me levantei, mas ele
balançou a cabeça, e me disse apenas: - Volte.
Na portaria no hotel ele me deixou,
eram 9 horas da manhã. Pensei que apenas eu sairia da moto, e me despediria com
um aceno. Mas ele se levantou e caminhou em minha direção. Me assustei em
pensamento, e não deixei que eles afetassem minha expressão. Ele encarava meus
olhos, e antes que eu pudesse perceber, segurou minha mão, e me puxou para um
beijo. Deslizei minha mão das suas costas e segurei sua nuca, e ele segurou
minha cintura levemente. O beijo durou algo mais que um minuto apenas, ao passo
que se intensificava, ele apertava meu corpo contra o dele, causando-me
borboletas no estômago. Ao nos soltarmos, ele me olhou sem expressão definida,
me pediu desculpas, despediu-se com um beijo na bochecha e andou até a moto.
Sem reação, não saí do lugar até que ele desaparecesse naquela rua plana
cercada por prédios e casas. Me virei lentamente, e entrei no hotel.
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