quarta-feira, 25 de julho de 2012

Capítulo II


Saímos daquele bar e me surpreendi ao perceber que o Sol começaria à nascer em minutos, olhei o relógio e vi que passei um bom tempo conversando com aquele estranho, cujo ainda nem sabia o nome , sobre outras coisas além da música; já eram quase 6 horas da manhã. Ele subiu na moto que era dele, e indicou para que eu subisse, coloquei a minha mochila nos dois ombros e subi.
Tive que me segurar no corpo dele, achei que daria para me segurar apenas no banco, mas minha mochila pesando nas costas e a velocidade que íamos, foi preciso. Em apenas 5 minutos chegamos ao destino: ao que parecia, um prédio antigo. Saí da moto e ajeitei a mochila nas costas, e ele me apresentou o local. Era a biblioteca municipal. Ficava aberta 24 horas, naquela cidade, não era preciso um controle para os livros, pois a literatura era bem estimulada e todos tinham um respeito com bibliotecas e principalmente com os livros. Entretanto, não era possível evitar que de vez em quando um pequeno desaparecimento de um ou dois livros acontecesse. Ele deu alguns passos em direção ao prédio, mas notou que eu havia ficado para trás, deslumbrada com a beleza da biblioteca.
- Você vem? – disse se aproximando, e deu uma leve puxadinha no meu braço.
- Ah, claro. – respondi, um pouco envergonhada pela minha distração.
Por dentro, era ainda mais impressionante: livros de todos os tipos, romances, poesias, ação, aventuras, mistérios, eram de todos os tipos mesmo, cada seção possuía duas estantes inteiras com um tipo de livro. Era enorme, livros por todos os lados.
Ele pegou um livro de crônicas, e ao que parecia, já o conhecia bem. Disse que já havia terminado por ali, e perguntou-me se queria pegar algum livro. Respondi que no dia seguinte passaria aqui e escolheria alguns, pois devorava livros em um dia apenas,quando não havia algo mais oportuno à fazer. Deixamos a biblioteca, e ele me levou até a margem de um lago. Haviam alguns troncos deitados, deixados lá para servir de assento, e o lago brilhava com o reflexo do Sol, que já começava a nascer. Ele se sentou ali mesmo, naqueles troncos, e eu me sentei a sua frente, em outro tronco. Tirou da mochila que trazia, o livro, e ergueu-o para mim, eu o olhei me perguntando o que ele queria que fizesse.
- Leia – apontando para a crônica “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector – é um texto agradável, eu amo vir ler aqui, torna a leitura ainda mais bela sendo neste horário.
- Posso saber o seu nome? Não sei ainda...
- Ah! Nossa, eu realmente esqueci dessa parte fundamental de qualquer relacionamento – ele riu – me desculpa. Me chamo Antônio. – e sorriu sem jeito. – E você...?
- Me chamo Luna...
- É um lindo nome. Minha melhor amiga no colegial se chamava Luana, mas eu insistia em chamá-la de Luna, é mais suave, e combinava mais com ela. Depois que saímos da escola, cada um seguiu seu caminho, às vezes encontro com ela, mas cê sabe, quando você se separa de uma pessoa, perde-se toda aquela intimidade que se tinha. Crescemos, tomamos outros interesses, conhecemos outras pessoas... – ele parou por alguns segundos – e por fim, aquela amizade não consegue mais ser restaurada. O certo é deixar, e seguir em frente.
- Nunca terei um problema como esses. Viajo de cidade em cidade sozinha, não costumo conhecer muitas pessoas, nem me envolver.
- Uau. É uma vida um pouco solitária, naõ acha?
- Tem suas vantagens.
- Como o quê?
- Bom, pra começar, são lugares lindos, conhece-se várias culturas, aproveita-se de tudo um pouco de cada local. E não preciso me decepcionar com as pessoas, ou causá-las algum mal, já que não conheço muita gente.
- De certa forma... -  ele pareceu um tanto decepcionado depois de dizer que não costumo me envolver, e então tentei contornar a situação, e fazê-lo exibir aquele sorriso lindo que possuía. – Mas, pra ser sincera, você é uma das poucas pessoas que conseguiram se aproximar, e não se afastaram rapidamente. Digo, estou gostando de você. – sorri, e o olhei de uma maneira diferente, mas logo desviei.
Silêncio. Ele sorriu, mas não disse nada, apenas olhou para baixo, e pensativo, ficou desenhando com um graveto no solo meio arenoso da margem. Quando pensei em me despedir, mas até marcar um novo encontro, ele levantou o rosto e lembrou-se do que viemos fazer ali:
- Ei, acabamos nos esquecendo de ler os textos, por favor, leia o seu, em seguida lerei um também...
- Hum, tá bem. – peguei o livro e comecei – “ Felicidade clandestina”... “Ela era gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. [...]”
Fui lendo e lendo, sem parar, e ele sorria bobo, sem motivo aparente para tal sorriso, e observava-me durante a leitura. Por fim, acabei, e ele aplaudiu.
- Não entendi, tudo que fiz foi ler.
- Eu sei, mas você extremamente bem, poderia recitar poesias na frente de vários, em bares, e sem problema, ganhar uns bons aplausos e elogios. Lê com alma e entonação.
- Obrigada...  – fiquei envergonhada, e para quebrar aquele clima, o convoquei para ler também – agora pode escolher o seu.
- Ah, eu já escolhi. Chama-se “O amor por entre o verde” do Vinícius de Morais, é um de meus favoritos.
- Nunca li, vamos que assim eu o conheço.
- “O amor por entre o verde”... “Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. [...]”
E foi lendo e lendo, com a sua voz macia, dançava em meus ouvidos acariciando-me a face, o texto era belo, e sua leitura o fazia mais belo ainda. “É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado...”. A frase me tocou lá no fundo. Sabia que com essas viagens, abandonei minha chance de viver normalmente, ter um amor, casar-me, sabia que viajando assim, não encontraria o meu “ser verdadeiramente amado”. Olhei para Antônio, e sorri. Entendi o porquê daquele sorriso dele, anteriormente, estava sorrindo da mesma maneira agora. Eu estava gostando, estava me divertindo com ele, mal conhecera ele e já estava gostando, realmente gostando dele. O texto foi terminado, e eu pude me ouvir aplaudindo, foi involuntário. Ele me disse que já era hora de voltar para seu prédio, ficara fora o dia inteiro no dia anterior, e tinha algumas coisas para fazer. Concordei, eu já estava com sono, e precisava arrumar algumas fotos e anotações num dos meus cadernos de viagem. Ele me ofereceu uma carona até o hotel que estava, e me perguntou onde era.
- Ao lado do bar. – sorri – por isso vou lá frequêntemente.
- Ah, sim. Talvez passe por lá um dia para te encher um pouco a paciência. – riu.
- Não seria uma má ideia.
- Vamos?
Subimos na moto e me agarrei, sem hesitar, ao seu corpo, e apoiei o resto de meu corpo nas suas costas, senti sua respiração vacilar um pouco, e entendi que o incomodei, e me levantei, mas ele balançou a cabeça, e me disse apenas: - Volte.
Na portaria no hotel ele me deixou, eram 9 horas da manhã. Pensei que apenas eu sairia da moto, e me despediria com um aceno. Mas ele se levantou e caminhou em minha direção. Me assustei em pensamento, e não deixei que eles afetassem minha expressão. Ele encarava meus olhos, e antes que eu pudesse perceber, segurou minha mão, e me puxou para um beijo. Deslizei minha mão das suas costas e segurei sua nuca, e ele segurou minha cintura levemente. O beijo durou algo mais que um minuto apenas, ao passo que se intensificava, ele apertava meu corpo contra o dele, causando-me borboletas no estômago. Ao nos soltarmos, ele me olhou sem expressão definida, me pediu desculpas, despediu-se com um beijo na bochecha e andou até a moto. Sem reação, não saí do lugar até que ele desaparecesse naquela rua plana cercada por prédios e casas. Me virei lentamente, e entrei no hotel.

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