terça-feira, 24 de julho de 2012

Capítulo I


Viajava para qualquer lugar, desfrutava de todo tipo de paisagem, degustava um pouco de cada cultura, deslumbrava-me com a quantidade de pessoas que cabiam em um bar tão pequeno. Tão pequeno, tão escuro, tão rústico, ao mesmo tempo, tão convidativo. Naquele bar, tocavam bandas de que ninguém ouvira falar, bandas alternativas com tanto tempo de estrada, e tão pouco reconhecidas. O lugar era um tipo de santuário da música: por todos os cantos, paredes, prateleiras e estantes, discos, pôsteres, objetos, panfletos e camisas eram espalhados, e quase não havia mais espaço para algo a mais, porém, sempre dava-se um jeito de uma banda qualquer deixar sua marca por ali, nem que fosse no chão, no teto, e até no banheiro.
E foi naquele bar, numa de minhas viagens mais simples, numa cidadezinha qualquer, que conheci o protagonista da melhor história que vivi. Não, não poderia ter sido uma história de amor, acredito que não tenha sido tudo isso. Foi intenso, não posso negar. Houve aquele sentimento fervoroso, que aquece até a alma mais fria, que invade todo o seu corpo até que explode num beijo. Paixão foi o que aconteceu. No meio de tanta bagunça, eu me apaixonei.
Era véspera de Natal, e apenas aos 23 anos, já não tinha ninguém para passar a data. Não era mesquice minha, eu realmente não tinha ninguém. Viver assim, viajando por todos os cantos sozinha, acompanhada apenas da própria loucura, não era lá aquelas maravilhas. Foi preciso abandonar tudo, deixar pra trás família, casa, amigos, amores, e enfim, pesos do passado. Desde  então, vem sido assim: de cidade em cidade, procurando não envolver-me com as pessoas, mas algumas vezes, acabo por me envolver. Como aconteceu na tal véspera de Natal que estava mencionando.
Apressei-me em encontrar minha mesa favorita do bar, dois lugares, perto o suficiente do balcão e do palco, num canto com boa iluminação para ler um livro ou fazer palavras cruzadas, como era de costume fazer. Não era muito de beber, em poucas situações o fazia, e não estava com cabeça para enfrentar uma ressaca em pleno Natal, pedi apenas uma coca-cola. As garçonetes já conheciam a garota que sempre se sentava naquele mesmo lugar, e numa data tão inusitada para estar sozinha, apressaram-se em perguntar:
- Não é uma data muito estranha para se estar sozinha, mocinha? – Lídia, sempre muito prestativa, trouxe-me, junto com o refrigerante, o famoso prato de peixe que lá preparavam com bastante êxito – É por conta da casa. –Sorriu.
- Sim, obrigada –agradeci  pelo peixe – mas não é por opção que estou aqui. Quer dizer, adoro este lugar, mas é o único que conheço, então é mesmo por falta de opção. – Respondi tentando parecer tão simpática quanto Lídia, mas com esse meu desajeito costumeiro, soou como grosseria. – Desculpe, não quis parecer arrogante.
- Andar sozinha assim, não deve lhe trazer um dos ares mais sociáveis que se pode ter, não se preocupe,  eu entendi de certa forma. – Como sempre fazia, despediu-se com um sorriso e um aceno, tinha mais coisas a fazer do que ouvir as besteiras que costumo dizer.
Comi aquele peixe com tanto gosto que até me subiu aquela satisfação, a música estava ótima, e naquela hora, até que não me incomodava tanto estar sozinha. Eram quase  duas horas da manhã, e eu já estava pensando em voltar para o hotelzinho que estava hospedada, mas um rapaz aproximou-se e pediu para se sentar ali. Assenti, com um sorriso torto, e ele se pronunciou:
- Não haviam muitos lugares sobrando, e este, não é uma cantada, moça, parecia-me o mais agradável. – a voz era grossa, mas era suave.
Olhei a volta, duas mulheres sentadas no balcão, ambas com cabelos sedosos, seios fartos e rostos sedutores. Mais à esquerda, três homens bem afeiçoados, bebiam e riam numa mesinha com cinco lugares. E logo em frente ao palco, uma mesa vazia. O que traria aquele homem a umlugar como esse bar, e justamente à minha mesinha, tão sem-graça, em pleno Natal? E ainda: a volta, tantas opções mais atraentes, como as belas moças e os homens, por que justo a minha companhia parecia mais agradável? No fim, não disse nada, afinal, não é sempre que um homem assim senta-se a sua frente e puxa conversa, bom, pelo menos no meu caso, não é assim. Observei-o: moreno, cabelo liso, meio jogado com um comprimento médio, olhos azuis e uma barba mal-feita que era um charme. A camisa preta, meio aberta com o peito levemente à mostra. Digamos assim, um homem um tanto atraente. Sorri, mas não arrisquei dizer algo, poderia estragar uma conversa talvez prazerosa, caso deixasse esse meu desajeito falar. Deixe que falasse algo primeiro.
- Então, você costuma vir muito aqui? – aquele homem realmente não estava me cantando?
Olhei para ele, com um ar meio debochado, ainda estava achando um pouco estranho o que ele vinha dizendo, mas tomei um ar mais natural e tentei responder normalmente:
- Venho frequentado este bar tem algumas semanas, não sou da cidade, é um dos únicos lugares que conheço, e de longe, o mais agradável.
- Gosto muito daqui, a música que tocam é a melhor parte, é bem aconchegante. – Ele não parecia se interessar diretamente em mim, estava mais interessado na conversa, talvez tenha sido por isso, deve ter achado que eu era uma pessoa boa para conversar, apenas isso. – Você gosta desse tipo de música? Digo, rock, grunge, é o seu estilo?
- É o que mais gosto, me traz paz. Parece estranho, porque é um tanto agitado, mas me acalma, a melodia, a letra, o conjunto todo traz um boa sensação. – Ele me olhou de maneira estranha. Droga, já tinha dito alguma besteira.
- Você lê pensamentos? Porque é exatamente o que acontece quando venho aqui. Eu venho aqui procurando exatamente essa sensação. – Ele sorriu. Foi um sorriso? Ele não estava rindo de mim? Poderia ser um deboche...
- Hum. Não leio. – Olhei para ele intrigada, não havia outro jeito de descobrir se era um deboche sem ser perguntar. Não tinha nada na sua expressão que comprovasse uma brincadeira, ele parecia convicto ao afirmar sobre a música. – Você está brincando comigo, não é?
- Não! Claro que não, é realmente o que disse, esse lugar me acalma. Pareceu uma brincadeira?
- Estou acostumada a dizer o que penso e acabar  julgada como esquisita. É de costume que debochem do que digo. Já não ligo, é o meu normal. Sabe? É o meu normal ser anormal. – Sorri sem jeito, estava dizendo besteiras de novo, contando da minha vida para um completo estranho.
- Você se parece demais comigo... o jeito como fala, é quase como me sinto na maior parte do tempo. Sei que parece estranho, mas posso lhe mostrar um lugar?
- Realmente é estranho. Não é uma tentativa de me levar pra cama ou algo assim, é? – Disse aquilo brincando, mas a sua resposta me surpreendeu.
- Não arriscaria perder uma moça como você na primeira noite. Eu espero só um beijo roubado por enquanto. – Ele riu. Acho que era apenas uma brincadeira. – Vamos?
Eu ri antes de responder, confesso que me assustei com essa resposta. Estaria ele interessado em mim? Não importa. Eu não pensei muito antes de aceitar, era a primeira pessoa que realmente me chamou a atenção por aqui, e acho que não faria mal algum sair para conhecer um novo lugar.

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