Viajava para qualquer lugar, desfrutava
de todo tipo de paisagem, degustava um pouco de cada cultura, deslumbrava-me
com a quantidade de pessoas que cabiam em um bar tão pequeno. Tão pequeno, tão
escuro, tão rústico, ao mesmo tempo, tão convidativo. Naquele bar, tocavam
bandas de que ninguém ouvira falar, bandas alternativas com tanto tempo de
estrada, e tão pouco reconhecidas. O lugar era um tipo de santuário da música:
por todos os cantos, paredes, prateleiras e estantes, discos, pôsteres,
objetos, panfletos e camisas eram espalhados, e quase não havia mais espaço
para algo a mais, porém, sempre dava-se um jeito de uma banda qualquer deixar
sua marca por ali, nem que fosse no chão, no teto, e até no banheiro.
E foi naquele bar, numa de minhas
viagens mais simples, numa cidadezinha qualquer, que conheci o protagonista da
melhor história que vivi. Não, não poderia ter sido uma história de amor,
acredito que não tenha sido tudo isso. Foi intenso, não posso negar. Houve aquele
sentimento fervoroso, que aquece até a alma mais fria, que invade todo o seu
corpo até que explode num beijo. Paixão foi o que aconteceu. No meio de tanta
bagunça, eu me apaixonei.
Era véspera de Natal, e apenas aos 23
anos, já não tinha ninguém para passar a data. Não era mesquice minha, eu
realmente não tinha ninguém. Viver assim, viajando por todos os cantos sozinha,
acompanhada apenas da própria loucura, não era lá aquelas maravilhas. Foi
preciso abandonar tudo, deixar pra trás família, casa, amigos, amores, e enfim,
pesos do passado. Desde então, vem sido
assim: de cidade em cidade, procurando não envolver-me com as pessoas, mas
algumas vezes, acabo por me envolver. Como aconteceu na tal véspera de Natal
que estava mencionando.
Apressei-me em encontrar minha mesa
favorita do bar, dois lugares, perto o suficiente do balcão e do palco, num
canto com boa iluminação para ler um livro ou fazer palavras cruzadas, como era
de costume fazer. Não era muito de beber, em poucas situações o fazia, e não
estava com cabeça para enfrentar uma ressaca em pleno Natal, pedi apenas uma
coca-cola. As garçonetes já conheciam a garota que sempre se sentava naquele
mesmo lugar, e numa data tão inusitada para estar sozinha, apressaram-se em
perguntar:
- Não é uma data muito estranha para se
estar sozinha, mocinha? – Lídia, sempre muito prestativa, trouxe-me, junto com
o refrigerante, o famoso prato de peixe que lá preparavam com bastante êxito –
É por conta da casa. –Sorriu.
- Sim, obrigada –agradeci pelo peixe – mas não é por opção que estou
aqui. Quer dizer, adoro este lugar, mas é o único que conheço, então é mesmo
por falta de opção. – Respondi tentando parecer tão simpática quanto Lídia, mas
com esse meu desajeito costumeiro, soou como grosseria. – Desculpe, não quis parecer
arrogante.
- Andar sozinha assim, não deve lhe
trazer um dos ares mais sociáveis que se pode ter, não se preocupe, eu entendi de certa forma. – Como sempre
fazia, despediu-se com um sorriso e um aceno, tinha mais coisas a fazer do que
ouvir as besteiras que costumo dizer.
Comi aquele peixe com tanto gosto que
até me subiu aquela satisfação, a música estava ótima, e naquela hora, até que
não me incomodava tanto estar sozinha. Eram quase duas horas da manhã, e eu já estava pensando
em voltar para o hotelzinho que estava hospedada, mas um rapaz aproximou-se e
pediu para se sentar ali. Assenti, com um sorriso torto, e ele se pronunciou:
- Não haviam muitos lugares sobrando, e
este, não é uma cantada, moça, parecia-me o mais agradável. – a voz era grossa,
mas era suave.
Olhei a volta, duas mulheres sentadas
no balcão, ambas com cabelos sedosos, seios fartos e rostos sedutores. Mais à
esquerda, três homens bem afeiçoados, bebiam e riam numa mesinha com cinco
lugares. E logo em frente ao palco, uma mesa vazia. O que traria aquele homem a
umlugar como esse bar, e justamente à minha mesinha, tão sem-graça, em pleno
Natal? E ainda: a volta, tantas opções mais atraentes, como as belas moças e os
homens, por que justo a minha companhia parecia mais agradável? No fim, não
disse nada, afinal, não é sempre que um homem assim senta-se a sua frente e
puxa conversa, bom, pelo menos no meu caso, não é assim. Observei-o: moreno,
cabelo liso, meio jogado com um comprimento médio, olhos azuis e uma barba
mal-feita que era um charme. A camisa preta, meio aberta com o peito levemente
à mostra. Digamos assim, um homem um tanto atraente. Sorri, mas não arrisquei
dizer algo, poderia estragar uma conversa talvez prazerosa, caso deixasse esse
meu desajeito falar. Deixe que falasse algo primeiro.
- Então, você costuma vir muito aqui? –
aquele homem realmente não estava me cantando?
Olhei para ele, com um ar meio
debochado, ainda estava achando um pouco estranho o que ele vinha dizendo, mas
tomei um ar mais natural e tentei responder normalmente:
- Venho frequentado este bar tem algumas
semanas, não sou da cidade, é um dos únicos lugares que conheço, e de longe, o
mais agradável.
- Gosto muito daqui, a música que tocam
é a melhor parte, é bem aconchegante. – Ele não parecia se interessar diretamente
em mim, estava mais interessado na conversa, talvez tenha sido por isso, deve
ter achado que eu era uma pessoa boa para conversar, apenas isso. – Você gosta
desse tipo de música? Digo, rock, grunge, é o seu estilo?
- É o que mais gosto, me traz paz.
Parece estranho, porque é um tanto agitado, mas me acalma, a melodia, a letra,
o conjunto todo traz um boa sensação. – Ele me olhou de maneira estranha.
Droga, já tinha dito alguma besteira.
- Você lê pensamentos? Porque é
exatamente o que acontece quando venho aqui. Eu venho aqui procurando
exatamente essa sensação. – Ele sorriu. Foi um sorriso? Ele não estava rindo de
mim? Poderia ser um deboche...
- Hum. Não leio. – Olhei para ele
intrigada, não havia outro jeito de descobrir se era um deboche sem ser
perguntar. Não tinha nada na sua expressão que comprovasse uma brincadeira, ele
parecia convicto ao afirmar sobre a música. – Você está brincando comigo, não
é?
- Não! Claro que não, é realmente o que
disse, esse lugar me acalma. Pareceu uma brincadeira?
- Estou acostumada a dizer o que penso
e acabar julgada como esquisita. É de
costume que debochem do que digo. Já não ligo, é o meu normal. Sabe? É o meu
normal ser anormal. – Sorri sem jeito, estava dizendo besteiras de novo,
contando da minha vida para um completo estranho.
- Você se parece demais comigo... o
jeito como fala, é quase como me sinto na maior parte do tempo. Sei que parece
estranho, mas posso lhe mostrar um lugar?
- Realmente é estranho. Não é uma
tentativa de me levar pra cama ou algo assim, é? – Disse aquilo brincando, mas
a sua resposta me surpreendeu.
- Não arriscaria perder uma moça como
você na primeira noite. Eu espero só um beijo roubado por enquanto. – Ele riu.
Acho que era apenas uma brincadeira. – Vamos?
Eu ri antes de responder, confesso que
me assustei com essa resposta. Estaria ele interessado em mim? Não importa. Eu
não pensei muito antes de aceitar, era a primeira pessoa que realmente me
chamou a atenção por aqui, e acho que não faria mal algum sair para conhecer um
novo lugar.
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