Não sei o que me deu para beijá-la
assim tão de repente. Provavelmente a assustei, que idiota eu fui. Mas, eu não
me contive, quando nossos lábios se tocaram, ela não hesitou, ela deixou que
acontecesse, talvez não tenha sido tão ruim quanto pensei. Eu gostaria de
encontrá-la mais uma vez, mas não sei como aparecer no hotel em que está e
dizer “oi”. Ela tinha dito que hoje iria até a biblioteca, será que consiguiria
encontrá-la lá?
Foi o que fiz. Ás três horas da tarde,
fui até a biblioteca e esperei-a num lugar que tivesse visão de toda a entrada.
Conferi antes, para ver se ela já não estaria lá, procurei na seção de poesia,
de romances, literatura clássica, em quase todas, mas pelo visto ainda não
chegara. Esperei, já eram quatro horas. Peguei um livro para ler, e esperei
mais alguns minutos, ao que parecia, ela não chegaria, e eu não poderia passar
o dia inteiro numa biblioteca. Então, resolvi passar em frente ao seu hotel.
Parei ali, na calçada, e olhava ora para a portaria, ora para as janelas que
davam vista para a rua: nem um sinal dela. Pensei seriamente em entrar e
procurar pelo quarto em que estava hospedada, mas não tive coragem o
suficiente. Será que ela já teria ido embora? Não pode ser, ao que me lembrava,
Luna dissera que passava cerca de dois meses em cada lugar, e só estava ali há
uma semana apenas. Então, deixei para o dia seguinte repetir a mesma trajetória
de hoje, iria para a biblioteca as três horas novamente, de amanhã.
Mas por que cargas d’agua não peguei um
telefone, um e-mail ou qualquer coisa?! Se havia gostado tanto assim de uma
garota, tão rápido, por que não pensei em lhe pedir um próximo encontro? Acho
que pensei demais só nela. Digo, não pensei no dia seguinte, pensei apenas no
tempo em que estava com ela. Que droga.
Eu optei por sair dali, tomar um banho
em casa, e tentar dormir logo, para que o dia seguinte chegasse mais rápido,
mas eu não consegui. Revirei-me na cama mil e uma vezes, e quando eram uma e
meia da manhã, finalmente peguei no sono.
Terça-feira enfim chegara, e eu ainda
estava na cama às dez horas da manhã, pois não tive uma boa noite de sono.
Apressei-me em tomar uma ducha, e arrumei-me com muito capricho, finalizando
com um sorriso para o espelho, esperando tarzer alguma confiança. “Que coisa de
adolescentes!”, pensei. E realmente estava agindo como um: sem coragem para
falar com a garota que me encantou. Subi na moto, e fui para a biblioteca. Como
fiz no dia anterior, sentei-me no mesmo lugar que desse vista para a estrada, e
que ao mesmo tempo fosse discreto o bastante para ela não me notar.
Desta vez, não demorou muito para que
chegasse. Estava indecisa entre poesia e romance, o que era bem a sua cara.
Antes que me aproximasse, fitei a garota que estava tomando conta da minha
cabeça: cabelos médios até os ombros, com pouco volume, ondulados e castanhos;
os rosto fino e mais arredondado, lábios reluzentes, enfeitados com brilho
labial; os olhos castanhos, com cílios volumosos, talvez devido ao rímel, mas
com pouca maquiagem. O corpo era magro, com poucas curvas, mas era leve, e o
vestido sem estampa preto que usava junto com um cardigã vermelho de linha,
davam a ela uma leveza e inocência perfeitamente combinadas. Esperei até que
entrasse na seção que desejava, e dei a volta, entrando na mesma seção, pelo
lado oposto. Olhei para ela de perto, e não pude conter o sorriso que surgiu ao
encontrar o olhar dela e ver que ela também sorria. Ela tinha o sorriso mais
delicado que tivera visto em toda minha vida, os dentes perfeitamente
alinhados, com lábios macios e doces. Foi o que pude provar no beijo que acabei
lhe dando. Enquanto eu me perdia mais uma vez nos olhos dela, não percebi que
vinha se aproximando a dona dos meus pensamentos, e quando finalmente acordei,
ela já vinha me cumprimentando:
- Oi... – ela estava tímida, mas ainda
sorria.
- Oi!
- Eu te procurei aqui ontém, mas não
encontrei. Vim lá pelas 7 horas da noite.
- Droga. – sussurrei para mim.
- Oi?
- Nada. Eu passei por aqui, pensei que
poderia te encontrar, mas vim mais cedo, acabamos por nos desencontrar.
- É...
-“Ei, me passa seu telefone?”- dissemos
ao mesmo tempo, depois de alguns segundos em silêncio. Rimos.
- Claro, mas o meu vai ter que ser o
celular, né.
- Sim...
Trocamos os celulares. Entreolhamo-nos,
e eu cheguei a pensar em chamá-la para sair naquele exato momento, mas desisti,
porque temia uma rejeição. Que idiota, como não tomei a iniciativa, ela, madura
e decidida, criou coragem e me chamou:
- Ei, você por acaso não estaria livre
agora, estaria? – ela me olhou um pouco sem-graça.
- Estou sim.
- Quer ir tomar um suco lá fora?
Eu aceitei ligeiramente, e parecia uma
criança, de tão entusiasmado que estava. Ela não parecia se incomodar com essa
minha felicidade, não parecia nem notar muito, estava sorrindo, e andava
calmamente rumo à lanchonete próxima a aquela biblioteca em que estávamos. Ela
foi andando silenciosamente, e de longe já escolhera um lugar, nos sentamos, e
logo veio uma mocinha pouco luminosa nos atender. A garota vestia um jeans
surrado, o cabelo meio tingido de preto com mechas roxas, preso num rabo de
cavalo, a camisa branca estava encoberta pelo enorme avental da lanchonete. Ela
era baixinha, não devia ter mais que 17 anos, mas não parecia muito satisfeita
com a vida. Luna olhou para o cardápio e rapidamente bateu o olho no seu suco favorito:
- Maracujá. Hummm, por favor, um suco
de maracujá. E pra você? – ela me perguntou.
- Vou querer um suco de pêssego, por
favor.
- Certo. – a mocinha anotou ligeira os
pedidos, e foi embora.
Nós conversamos normalmente, não
falamos sobre aquela noite, mas talvez fosse melhor, poderia trazer um clima
diferente para a conversa, caso fosse lembrado. Ela ria das minha piadas, e eu
me impressionava com isso, eu sabia que não eram boas. Talvez ela ria por
simpatia, ou as achava tão idiotas que acabavam sendo engraçadas. Não demorou
muito para que terminássemos o suco e junto, o assunto. Ficamos nos olhando e
sorrindo, sem muita coisa a dizer. Até que ela se pronunciou:
- Eu acho melhor ir.
- Mas já? Temos tanto a conversar, não
tenho muitos planos agora.
- Eu sei, nem eu, mas me deu um sono, e
acho melhor eu me descansar. Tenho alguns pensamentos à organizar, também.
- Entendo. Posso levá-la até o hotel?
- Ah, não precisa. É logo ali, eu posso
ir andando.
- Se não se incomoda...
- Obrigada, mesmo assim.
Não tinha mais o que dizer, ela iria
agora, e eu deixaria. Eu precisava tê-la, mas algo me dizia que não daria
certo. Ela iria embora em semanas, e talvez nunca mais eu a visse. Eu queria
dizer alguma coisa, pedir para ficar, puxá-la para meus braços e envolvê-la. Eu
queria beijá-la mais uma vez, sentir o doce daqueles lábios, mas eu sabia que
não poderia. Eu queria algo que não conseguiria ter.
Mas ela me surpreendeu. Essa mulher,
decidida, tomava as suas atitudes sem pensar muito, se virou para mim e selou-me
os lábios. Na ponta dos pés, ela precisou ficar, e assim que desceu, fitou-me,
esperando alguma resposta. Não me contive. Eu simplesmente a beijei. De novo. E
de novo. Não parávamos, não conseguíamos. Pequena, ficava na ponta dos pés, e
eu a levantei pela cintura. Não conseguimos evitar essa atração, quando nos
soltávamos, entreolhávamo-nos e retomávamos o beijo. Até que ela parou. Ela
literalmente me empurrou, e a apenas um palmo de distância, me sussurou:
- Por que está fazendo isso?
- Isso o quê?
- Invadindo-me. Não diga que não me
entendeu. Você me beijou, eu te beijei, e nem sequer nos conhecemos. Eu não
poderia, eu não posso ceder assim.
- Então resista. Porque eu não consigo.
Eu preciso.
- Eu não posso, não poderia me
apaixonar por você, que droga.
- Por que não? Me diga. Por que não
poderíamos ficar juntos?
- Eu nunca disse isso.
- Mas eu sei que não poderíamos, você
viaja pra lá e para cá, vive dizendo adeus pra as pessoas que conhece, encanta
e depois as deixa.
- E é exatamente por isso que não
poderíamos. Se você sabia, por que perguntou?
- Porque pensei que poderia haver
alguma maneira.
- E há.
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