Certamente, não haveria como ficarmos
juntos para sempre ou por um longo tempo, mas eu não poderia viver esses dias
sem ele, eu estava completa tendo-o ao meu lado, eu não podia deixá-lo. Aliás,
não conseguiria. Decidimos que não iríamos nos evitar, não tinha jeito, se uma
hora ou outra, acabaríamos cedendo a tentação, por que não ceder à todo tempo?
Foi o que fizemos.
Vivíamos juntos, ele me apresentou
alguns conhecidos, nenhum era realmente amigo, um deles era seu tio, o único
parente dele. Todos os dias, todos mesmo, nos encontrávamos naquele lago, de
manhã cedo, e conversávamos sobre tudo, nos abraçavamos, beijávamos. O dia todo
estávamos juntos, acho que era alguma maneira de compensar o futuro, como não
iríamos estar juntos por muito tempo, aproveitávamos o máximo desse tempo. Era
uma correria louca para pegar o trem que nos levava até a praia, em uma outra
cidade. Tudo era corrido, corríamos na praia, corríamos para ir ao bar, sempre
de mãos dadas, apara não nos perdemos. Só parávamos no final do dia, quando ele
me levava a uma cafeteria no centro da cidade, aconchegante. Tudo naquela
cidade era aconchegante. A esta altura, já conhecia boa parte dela, o centro,
todo o bairro em que estava o hotel, onde havia a biblioteca e o bar.
Mas, no final das contas, não era tudo
as mil maravilhas, não. Sempre havia um tempo para uma discussão boba, para uns
encândalos no meio da praia deserta, para uma garrafa quebrada no bar. O motivo
era sempre o mesmo: ele tentava me convencer a todo custo de ficar ali, naquela
cidade. Eu nunca pensei na possibilidade de parar. Parar em um lugar. Haviam
tantos lugares à conhecer, e eu ficaria ali por causa de uma paixão que um dia
acabaria? Talvez.
Passaram-se duas semanas. Por mais que
eu estivesse apaixonada, é, eu estava apaixonada por ele, e por mais que
estivesse, uma hora teria de acabar, uma hora teria de continuar e deixar pra
trás. Eu não queria. Eu havia me decidido que levaria esta vida meio sozinha,
que viveria nômade, não criaria laços. E agora, olha-me agora! Por Deus, onde
fui me meter? Eu me encontrava pensando o tempo todo, em quem sabe ficar por
ali, e o pior: encontrava mil motivos. O principal era Antônio. Aliás, quase um
terço dos motivos levavam até ele. Mas além dele, eu achava a cidade linda. Sem
dúvida a melhor que conhecera até então. Mas eu poderia conhecer melhores. Se
me prendesse à aquele local, quem me garantiria que eu conheceria esses tais
lugares?
Naquele dia, eu havia pedido um tempo
para Antônio. Brigamos na noite passada, então eu quis pensar. Mas não haviam
passado três horas que havia acordado, e ouvi as batidas ritmicas do causador
da minha insônia. Eu ainda estava na cama, detonada, com a pior dor de cabeça,
aquela que vem junto com uma ressaca. Demorei para atender, para ver se ele
desistiria, mas não. Ele continuou batendo, até que gritou do lado de fora:
- Não me importo se não quer falar
comigo, eu preciso te dizer algo.
Eu já devia esperar, essa conversa
daria em outra discussão, e isso era o que eu menos queria naquele momento. Mas
ele não parou, continuou batendo.
– Não importa se ainda está de pijama,
na cama, com cabelo dasarrumado, por favor, me deixa falar contigo!
Eu não podia deixá-lo ali, gritando
feito idiota do lado de fora de um quarto de hotel. Eu me levantei devagar, e
quase caí com a tonteira que me deu de repente. Abri a porta e ele entrou
agressivo, não era uma atitude agressiva para mim, mas ele não parecia
conformado com alguma coisa. Sentei-me a beirada da cama, e esperei ele se
acalmar. Ele andava de um lado para o outro, nervoso, e olhava para mim
esperando que eu dissesse alguma coisa. Mas eu não poderia, eu não tinha o que
dizer.
A briga de ontem, fora muito mais
intensa do que todas as outras. Resolvemos beber naquele bar, e por lá ficamos
até tarde da noite. Quando nos demos conta, já estávamos do lado de fora,
atirando-nos palavras horríveis, haviam garrafas quebradas, e mentes
completamente alteradas. Tudo estava se abalando, como se uma cristaleira
tivesse tombado e todos os seus cristais estivessem caindo dentro de mim.
Parecia não ter fim, e se houvesse, seria definitivo, haveria fim para nós.
Cansado, ele se virou, e tentou subir na moto, mas eu o agarrei e o empurrei,
gritando com ele, dizendo que não poderíamos ficar assim; mas ele não deu
atenção, olhou para mim, e subiu na moto novamente. E eu o deixei ir. Eu entrei
no hotel, com os olhos vermelhos de tanto segurar as lágrimas, e subi as
escadas, ignorando o elevador.
Enxaqueca, remédios para dormir, pra
acabar com a dor, café, lençóis, bagunça. Essa foi a minha noite. E aqueles
remédios não funcionavam, eu não consegui sequer pegar no sono. Já eram quatro
da manhã quando meu celular tocou. Não foi uma conversa longa, eu já sabia quem
era. Eram pedidos de desculpa, murmúrios, tristeza, por traz de uma voz
chorosa. De certo modo, eu o perdooei, e ele me perdoou, mas eu ainda estava
magoada, e queria muito pensar, por isso, pedi a ele, que me deixasse sozinha
naquele dia, pois seria bom para nós dois. Pelo visto, não foi assim que
ocorreu.
Lá estava ele, agoniado, querendo dizer
alguma coisa que não sabia o que era. Ele me fitava, encostado no guarda-roupas,
e eu sentada na beirada da cama. Seus olhos estavam molhados, e as
sombrancelhas caíam expressando seu arrependimento. Mas eu não conseguia
olhá-lo da mesma forma. Estava com raiva, mas não conseguia odiá-lo. Eu queria
terminar tudo, mas não conseguiria viver sem. Eu queria chutá-lo dali, mas eu
acabaria por puxá-lo de volta. E era isso, essa contradição. Eu sabia que ele
não diria nada, enquanto eu não dissesse primeiro, então, comecei da maneira
mais banal e idiota possível:
- Oi.
- Me ajuda.
- O que?
- Não fica assim, cê sabe o quanto
estamos sofrendo.
Eu sabia. Eu tinha completa e absoluta
noção do quanto aquilo estava me matando por dentro.
- O que espera que eu faça? Esqueça
tudo? Para depois começar tudo de novo? Deixar esse assunto não resolvido ficar
sempre batendo de frente, e nos destruir?
- Então por que não resolvemos?
- Por que não é tão simples. Não para
mim. Se fosse por você, eu ficaria aqui, com você, e abandonaria todos os meus
planos. Mas para mim, não é assim. Como eu disse: eu teria que abandonar tudo
que planejei para mim.
- Eu sei o quanto sou egoísta, mas você
não entende. Você não está entendendo que se você for, eu não vou conseguir
continuar. Se você for, se o que você sente por mim, é o mesmo que sinto por
você, você também não conseguiria seguir em frente.
- Eu sei que sinto por você, o mais
intenso dos sentimentos, é que tudo me prende à você, e tudo me faz querer
soltá-lo, por que se eu continuar, eu vou me perder.
- Por que não deixar então? Por que não
se permite ser minha?
- Por que eu quero ter o controle de
mim.
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