quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Capítulo IV


Certamente, não haveria como ficarmos juntos para sempre ou por um longo tempo, mas eu não poderia viver esses dias sem ele, eu estava completa tendo-o ao meu lado, eu não podia deixá-lo. Aliás, não conseguiria. Decidimos que não iríamos nos evitar, não tinha jeito, se uma hora ou outra, acabaríamos cedendo a tentação, por que não ceder à todo tempo? Foi o que fizemos.
Vivíamos juntos, ele me apresentou alguns conhecidos, nenhum era realmente amigo, um deles era seu tio, o único parente dele. Todos os dias, todos mesmo, nos encontrávamos naquele lago, de manhã cedo, e conversávamos sobre tudo, nos abraçavamos, beijávamos. O dia todo estávamos juntos, acho que era alguma maneira de compensar o futuro, como não iríamos estar juntos por muito tempo, aproveitávamos o máximo desse tempo. Era uma correria louca para pegar o trem que nos levava até a praia, em uma outra cidade. Tudo era corrido, corríamos na praia, corríamos para ir ao bar, sempre de mãos dadas, apara não nos perdemos. Só parávamos no final do dia, quando ele me levava a uma cafeteria no centro da cidade, aconchegante. Tudo naquela cidade era aconchegante. A esta altura, já conhecia boa parte dela, o centro, todo o bairro em que estava o hotel, onde havia a biblioteca e o bar.
Mas, no final das contas, não era tudo as mil maravilhas, não. Sempre havia um tempo para uma discussão boba, para uns encândalos no meio da praia deserta, para uma garrafa quebrada no bar. O motivo era sempre o mesmo: ele tentava me convencer a todo custo de ficar ali, naquela cidade. Eu nunca pensei na possibilidade de parar. Parar em um lugar. Haviam tantos lugares à conhecer, e eu ficaria ali por causa de uma paixão que um dia acabaria? Talvez.
Passaram-se duas semanas. Por mais que eu estivesse apaixonada, é, eu estava apaixonada por ele, e por mais que estivesse, uma hora teria de acabar, uma hora teria de continuar e deixar pra trás. Eu não queria. Eu havia me decidido que levaria esta vida meio sozinha, que viveria nômade, não criaria laços. E agora, olha-me agora! Por Deus, onde fui me meter? Eu me encontrava pensando o tempo todo, em quem sabe ficar por ali, e o pior: encontrava mil motivos. O principal era Antônio. Aliás, quase um terço dos motivos levavam até ele. Mas além dele, eu achava a cidade linda. Sem dúvida a melhor que conhecera até então. Mas eu poderia conhecer melhores. Se me prendesse à aquele local, quem me garantiria que eu conheceria esses tais lugares?
Naquele dia, eu havia pedido um tempo para Antônio. Brigamos na noite passada, então eu quis pensar. Mas não haviam passado três horas que havia acordado, e ouvi as batidas ritmicas do causador da minha insônia. Eu ainda estava na cama, detonada, com a pior dor de cabeça, aquela que vem junto com uma ressaca. Demorei para atender, para ver se ele desistiria, mas não. Ele continuou batendo, até que gritou do lado de fora:
- Não me importo se não quer falar comigo, eu preciso te dizer algo.
Eu já devia esperar, essa conversa daria em outra discussão, e isso era o que eu menos queria naquele momento. Mas ele não parou, continuou batendo.
– Não importa se ainda está de pijama, na cama, com cabelo dasarrumado, por favor, me deixa falar contigo!
Eu não podia deixá-lo ali, gritando feito idiota do lado de fora de um quarto de hotel. Eu me levantei devagar, e quase caí com a tonteira que me deu de repente. Abri a porta e ele entrou agressivo, não era uma atitude agressiva para mim, mas ele não parecia conformado com alguma coisa. Sentei-me a beirada da cama, e esperei ele se acalmar. Ele andava de um lado para o outro, nervoso, e olhava para mim esperando que eu dissesse alguma coisa. Mas eu não poderia, eu não tinha o que dizer.
A briga de ontem, fora muito mais intensa do que todas as outras. Resolvemos beber naquele bar, e por lá ficamos até tarde da noite. Quando nos demos conta, já estávamos do lado de fora, atirando-nos palavras horríveis, haviam garrafas quebradas, e mentes completamente alteradas. Tudo estava se abalando, como se uma cristaleira tivesse tombado e todos os seus cristais estivessem caindo dentro de mim. Parecia não ter fim, e se houvesse, seria definitivo, haveria fim para nós. Cansado, ele se virou, e tentou subir na moto, mas eu o agarrei e o empurrei, gritando com ele, dizendo que não poderíamos ficar assim; mas ele não deu atenção, olhou para mim, e subiu na moto novamente. E eu o deixei ir. Eu entrei no hotel, com os olhos vermelhos de tanto segurar as lágrimas, e subi as escadas, ignorando o elevador.
Enxaqueca, remédios para dormir, pra acabar com a dor, café, lençóis, bagunça. Essa foi a minha noite. E aqueles remédios não funcionavam, eu não consegui sequer pegar no sono. Já eram quatro da manhã quando meu celular tocou. Não foi uma conversa longa, eu já sabia quem era. Eram pedidos de desculpa, murmúrios, tristeza, por traz de uma voz chorosa. De certo modo, eu o perdooei, e ele me perdoou, mas eu ainda estava magoada, e queria muito pensar, por isso, pedi a ele, que me deixasse sozinha naquele dia, pois seria bom para nós dois. Pelo visto, não foi assim que ocorreu.
Lá estava ele, agoniado, querendo dizer alguma coisa que não sabia o que era. Ele me fitava, encostado no guarda-roupas, e eu sentada na beirada da cama. Seus olhos estavam molhados, e as sombrancelhas caíam expressando seu arrependimento. Mas eu não conseguia olhá-lo da mesma forma. Estava com raiva, mas não conseguia odiá-lo. Eu queria terminar tudo, mas não conseguiria viver sem. Eu queria chutá-lo dali, mas eu acabaria por puxá-lo de volta. E era isso, essa contradição. Eu sabia que ele não diria nada, enquanto eu não dissesse primeiro, então, comecei da maneira mais banal e idiota possível:
- Oi.
- Me ajuda.
- O que?  
- Não fica assim, cê sabe o quanto estamos sofrendo.
Eu sabia. Eu tinha completa e absoluta noção do quanto aquilo estava me matando por dentro.
- O que espera que eu faça? Esqueça tudo? Para depois começar tudo de novo? Deixar esse assunto não resolvido ficar sempre batendo de frente, e nos destruir?
- Então por que não resolvemos?
- Por que não é tão simples. Não para mim. Se fosse por você, eu ficaria aqui, com você, e abandonaria todos os meus planos. Mas para mim, não é assim. Como eu disse: eu teria que abandonar tudo que planejei para mim.
- Eu sei o quanto sou egoísta, mas você não entende. Você não está entendendo que se você for, eu não vou conseguir continuar. Se você for, se o que você sente por mim, é o mesmo que sinto por você, você também não conseguiria seguir em frente.
- Eu sei que sinto por você, o mais intenso dos sentimentos, é que tudo me prende à você, e tudo me faz querer soltá-lo, por que se eu continuar, eu vou me perder.
- Por que não deixar então? Por que não se permite ser minha?
- Por que eu quero ter o controle de mim.

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