quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Capítulo VI


Eu não esperei muito para sair, logo em seguida. Vesti uma roupa qualquer, soltei o cabelo, lavei o rosto e desci para tomar o café que o hotel servia. Não era muito bom, como o que eu fazia na cafeteira que havia no quarto, mas eu não estava com a menor vontade de preparar um. O fato, é que eu saí para dar uma volta, para pensar. E não muito longe dali, no bar, estava a moto dele estacionada. “Droga!” pensei, era ali que eu ia ficar um pouco, por que ele teria que estar justamente lá? Já tinha me esquecido que fora lá que nos conhecemos e ele disse que relaxava com a música do local. Passei reto. Continuei andando, desta vez sem rumo, e pensando em qual caminho seguiria.
Eu já estava praticamente decidida, só faltava um pouco de força para abandonar a cidade. E era justamente isso que eu não tinha. Era como se eu tivesse criado um vínculo, tudo ali parecia me confortar, aliás, confortava-me. O clima ameno favorecia o tipo de roupa que sempre gostei de usar, e o vento tinha um cheiro puro, a cidade era limpa e tão pequena. Até nos bairros mais afastados havia aquele conforto que encontrava ali. Mesmo com muito menos estrutura, porém não chegava aos pés das grandes cidades ( que abrigavam tanta pobreza). Não sei porque, mas cidades assim sempre exerciam um poder sobre mim. Mas, eu não poderia. Veja, mal consigo deixar essa cidade agora, imagine se permanecer aqui? A verdade, é que eu deveria deixá-la o quanto antes, pois assim seria mais fácil continuar a minha vida. Quem sabe um dia, eu poderia voltar, ou convidar as pessoas que conheci aqui para uma viagem qualquer. Mas naquele momento, eu havia de ir embora. E foi o que me decidi.
A última coisa que faria ali, era me despedir de Antônio. Eu sabia que se fizesse antes de tudo, ele com certeza acabaria por me convencer a ficar. E tendo tudo pronto para ir, não haveria como eu ser convencida. Fui para o hotel, e comecei a arrumar minha mala. Haviam sacolas de compras atrás da porta, pois na semana anterior fui ao shopping com Antônio. Tirei as roupas da sacola e fui jogando-as na mala, quando caiu um objeto pequeno no chão – uma pulseira. Antônio me dera naquele mesmo dia, quando me pediu para não me esquecer dele, envolveu-me num abraço e puxou meu pulso, antes que pudesse puxá-lo de volta, ele colocou em mim aquela pulseira. Não era nada demais, era uma pulseira trançada, e em uma das tranças, uma pedrinha envolvida. Era muito bonita, e ele a amarrou no meu pulso no último dia em que nos vimos, antes da briga. Eu a tirei depois, pois não conseguia parar de pensar nele quando a olhava. De qualquer modo, não a coloquei de volta, e tornei a arrumar minha mala. Estava quase tudo pronto, as últimas coisas que faltavam era me despedir de Antônio e fechar tudo com o hotel. E eu havia de me preparar.
Saí do hotel com as minhas duas malas tamanho médio, e com a minha mochila favorita, “apenas”. Para uma pessoa só, até que era bastante coisa para se carregar. Fui andando em direção à casa dele. Era uma casa simples, de um andar apenas, janelas de madeira rústica, e com venezianas do lado de dentro. A casa era branca, sem muito atrativo em sua faixada, mas assim como tudo naquela cidade, era convidativa, ainda mais sabendo quem morava nela. Toquei a campanhia, ainda com receio de sua reação ao me ver indo embora. Eu tinha em mente o que era preciso, e eu sabia que este seria o melhor para mim. Mas martelava em minha cabeça saber que ele não achasse que fosse o melhor. Ele não queria que fosse assim. Na sua opnião aquilo não era o melhor para ele, e nem para mim. Mas não era. Eu não era uma boa mulher para ele, não estudei, não acharia um emprego fácil, não seria um bom futuro para ele, além disso, meu pscicológico não era um ds melhores: mal humorada, chata, sistemática e dependente. Não seria, nunca, uma boa ideia ficar comigo. Ele havia de entender isso.
Quem abriu a porta foi o homem que era dono dos meus pensamentos, deslumbrante até de pijama, com barba mal-feita e olhos cansados. Aqueles olhos azuis... Ah. Ele estava ali, parado diante de mim, fitando minhas malas e minha expressão que não transmitia exatamente o que sentia, eu estava serena ao seu ver, mas por dentro tudo desabava.
- O que é isso?
- Eu estou indo embora. Me desculpe.
O que ele fez foi inesperado: não houve tempo para reagir, envolveu-me num abraço apertado que até o coração mais gélido acalmaria. Sem me soltar, sussurrou “não” em meus ouvidos, e eu pude sentir o laço na garganta que ele controlava. Eu nunca vi um homem chorar, principalmente por minha causa, e aquilo doía tanto, que não pude evitar que meus braços o apertassem mais, e não quisesse soltar-me do abraço. Ele não aprecia querer me soltar também. As lágrimas escorriam de seu queixo, e eu podia sentí-las em mim algumas vezes. Mas eu não poderia voltar atrás.
- Eu realmente sinto muito. Eu queria ficar para sempre aqui. Queria ser para sempre sua. Queria ter para sempre esse sentimento que eu tô guardando comigo e compartilhá-lo contigo. Mas eu preciso...
- Não pode ir.
- Por que não?
- Eu naõ vou aguentar.
- Eu é que não irei aguentar. Não sei mesmo se conseguirei seguir em frente, não com todo esse peso que tá dentro de mim. Você achará outras pessoas, outras mulheres, eu posso garantir. Mas eu estarei apenas comigo, vagando.
- Por que não pode simplesmente ficar?
- Se eu ficar, eu estarei dependente de você para sempre.
- E que mal há nisso? Por que não pode ser minha? Por que não deixa pelo menos uma vez alguém cuidar de ti?
- Eu não posso prever o futuro, pessoas são instáveis, com qualquer abalo podem se perder, e se nos perdemos eu me perderei. Deixe-me explicar. Eu não posso continuar aqui, porque se continuar, ficarei presa. Eu quero ser livre, não quero depender de algo. Se sair daqui o quanto antes, será mais fácil partir. Está vendo o quão difícil está sendo agora? Imagine se continuasse. Tudo porque conheci você.
- Ainda não vejo qual o mal de permanecer aqui comigo até o fim.
- E se não ficarmos juntos para sempre? Para sempre não é algo fácil de acontecer. Se acabar, eu não sei se aguentarei. Se eu ficar, além disso, poderia ser um grande problema na sua vida. Eu não estudei, eu só te atrapalharia.
- E você acha que eu estudei? Tudo que sei hoje, eu li nos livros daquela biblioteca.
- Esse era o menor dos meus problemas. Ainda assim, tenho medo.
- Medo? Onde está a Luna, decidida e forte, que conheci?
- Ela também tem um lado medroso, e maior parte do tempo é ele que toma conta. Eu só cuido para que ele não o assuste.
- Fica comigo aqui, prometo que não vou deixar você. E vou cuidar para que não sinta medo.
- Eu... droga. Eu não posso! Me deixa ir?
- Não! Não dá.
Há muito já havíamos nos separado do abraço, e apenas discutíamos frente a frente.
- Por que simplesmente não deixa que eu vá, e continua sua vida? Por que não pode esquecer? A menina forte que conheceu não é quem você pensa, ela é fraca, ela é medrosa, ela é um peso.
- Eu aguentaria qualquer coisa tendo você.
- Olha isso não vai dar certo. Não vamos à lugar nenhum assim. Eu acho que eu deveria experimentar ir embora. E... se não der par continuar, eu volto. Mas, sinta-se livre para me esquecer.
- Eu vou esperar que você volte.
- Obrigada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário