sexta-feira, 27 de julho de 2012

Capítulo III


Não sei o que me deu para beijá-la assim tão de repente. Provavelmente a assustei, que idiota eu fui. Mas, eu não me contive, quando nossos lábios se tocaram, ela não hesitou, ela deixou que acontecesse, talvez não tenha sido tão ruim quanto pensei. Eu gostaria de encontrá-la mais uma vez, mas não sei como aparecer no hotel em que está e dizer “oi”. Ela tinha dito que hoje iria até a biblioteca, será que consiguiria encontrá-la lá?
Foi o que fiz. Ás três horas da tarde, fui até a biblioteca e esperei-a num lugar que tivesse visão de toda a entrada. Conferi antes, para ver se ela já não estaria lá, procurei na seção de poesia, de romances, literatura clássica, em quase todas, mas pelo visto ainda não chegara. Esperei, já eram quatro horas. Peguei um livro para ler, e esperei mais alguns minutos, ao que parecia, ela não chegaria, e eu não poderia passar o dia inteiro numa biblioteca. Então, resolvi passar em frente ao seu hotel. Parei ali, na calçada, e olhava ora para a portaria, ora para as janelas que davam vista para a rua: nem um sinal dela. Pensei seriamente em entrar e procurar pelo quarto em que estava hospedada, mas não tive coragem o suficiente. Será que ela já teria ido embora? Não pode ser, ao que me lembrava, Luna dissera que passava cerca de dois meses em cada lugar, e só estava ali há uma semana apenas. Então, deixei para o dia seguinte repetir a mesma trajetória de hoje, iria para a biblioteca as três horas novamente, de amanhã.
Mas por que cargas d’agua não peguei um telefone, um e-mail ou qualquer coisa?! Se havia gostado tanto assim de uma garota, tão rápido, por que não pensei em lhe pedir um próximo encontro? Acho que pensei demais só nela. Digo, não pensei no dia seguinte, pensei apenas no tempo em que estava com ela. Que droga.
Eu optei por sair dali, tomar um banho em casa, e tentar dormir logo, para que o dia seguinte chegasse mais rápido, mas eu não consegui. Revirei-me na cama mil e uma vezes, e quando eram uma e meia da manhã, finalmente peguei no sono.
Terça-feira enfim chegara, e eu ainda estava na cama às dez horas da manhã, pois não tive uma boa noite de sono. Apressei-me em tomar uma ducha, e arrumei-me com muito capricho, finalizando com um sorriso para o espelho, esperando tarzer alguma confiança. “Que coisa de adolescentes!”, pensei. E realmente estava agindo como um: sem coragem para falar com a garota que me encantou. Subi na moto, e fui para a biblioteca. Como fiz no dia anterior, sentei-me no mesmo lugar que desse vista para a estrada, e que ao mesmo tempo fosse discreto o bastante para ela não me notar.
Desta vez, não demorou muito para que chegasse. Estava indecisa entre poesia e romance, o que era bem a sua cara. Antes que me aproximasse, fitei a garota que estava tomando conta da minha cabeça: cabelos médios até os ombros, com pouco volume, ondulados e castanhos; os rosto fino e mais arredondado, lábios reluzentes, enfeitados com brilho labial; os olhos castanhos, com cílios volumosos, talvez devido ao rímel, mas com pouca maquiagem. O corpo era magro, com poucas curvas, mas era leve, e o vestido sem estampa preto que usava junto com um cardigã vermelho de linha, davam a ela uma leveza e inocência perfeitamente combinadas. Esperei até que entrasse na seção que desejava, e dei a volta, entrando na mesma seção, pelo lado oposto. Olhei para ela de perto, e não pude conter o sorriso que surgiu ao encontrar o olhar dela e ver que ela também sorria. Ela tinha o sorriso mais delicado que tivera visto em toda minha vida, os dentes perfeitamente alinhados, com lábios macios e doces. Foi o que pude provar no beijo que acabei lhe dando. Enquanto eu me perdia mais uma vez nos olhos dela, não percebi que vinha se aproximando a dona dos meus pensamentos, e quando finalmente acordei, ela já vinha me cumprimentando:
- Oi... – ela estava tímida, mas ainda sorria.
- Oi!
- Eu te procurei aqui ontém, mas não encontrei. Vim lá pelas 7 horas da noite.
- Droga. – sussurrei para mim.
- Oi?
- Nada. Eu passei por aqui, pensei que poderia te encontrar, mas vim mais cedo, acabamos por nos desencontrar.
- É...
-“Ei, me passa seu telefone?”- dissemos ao mesmo tempo, depois de alguns segundos em silêncio. Rimos.
- Claro, mas o meu vai ter que ser o celular, né.
- Sim...
Trocamos os celulares. Entreolhamo-nos, e eu cheguei a pensar em chamá-la para sair naquele exato momento, mas desisti, porque temia uma rejeição. Que idiota, como não tomei a iniciativa, ela, madura e decidida, criou coragem e me chamou:
- Ei, você por acaso não estaria livre agora, estaria? – ela me olhou um pouco sem-graça.
- Estou sim.
- Quer ir tomar um suco lá fora?
Eu aceitei ligeiramente, e parecia uma criança, de tão entusiasmado que estava. Ela não parecia se incomodar com essa minha felicidade, não parecia nem notar muito, estava sorrindo, e andava calmamente rumo à lanchonete próxima a aquela biblioteca em que estávamos. Ela foi andando silenciosamente, e de longe já escolhera um lugar, nos sentamos, e logo veio uma mocinha pouco luminosa nos atender. A garota vestia um jeans surrado, o cabelo meio tingido de preto com mechas roxas, preso num rabo de cavalo, a camisa branca estava encoberta pelo enorme avental da lanchonete. Ela era baixinha, não devia ter mais que 17 anos, mas não parecia muito satisfeita com a vida. Luna olhou para o cardápio e rapidamente bateu o olho no seu suco favorito:
- Maracujá. Hummm, por favor, um suco de maracujá. E pra você? – ela me perguntou.
- Vou querer um suco de pêssego, por favor.
- Certo. – a mocinha anotou ligeira os pedidos, e foi embora.
­­­Nós conversamos normalmente, não falamos sobre aquela noite, mas talvez fosse melhor, poderia trazer um clima diferente para a conversa, caso fosse lembrado. Ela ria das minha piadas, e eu me impressionava com isso, eu sabia que não eram boas. Talvez ela ria por simpatia, ou as achava tão idiotas que acabavam sendo engraçadas. Não demorou muito para que terminássemos o suco e junto, o assunto. Ficamos nos olhando e sorrindo, sem muita coisa a dizer. Até que ela se pronunciou:
- Eu acho melhor ir.
- Mas já? Temos tanto a conversar, não tenho muitos planos agora.
- Eu sei, nem eu, mas me deu um sono, e acho melhor eu me descansar. Tenho alguns pensamentos à organizar, também.
- Entendo. Posso levá-la até o hotel?
- Ah, não precisa. É logo ali, eu posso ir andando.
- Se não se incomoda...
- Obrigada, mesmo assim.
Não tinha mais o que dizer, ela iria agora, e eu deixaria. Eu precisava tê-la, mas algo me dizia que não daria certo. Ela iria embora em semanas, e talvez nunca mais eu a visse. Eu queria dizer alguma coisa, pedir para ficar, puxá-la para meus braços e envolvê-la. Eu queria beijá-la mais uma vez, sentir o doce daqueles lábios, mas eu sabia que não poderia. Eu queria algo que não conseguiria ter.
Mas ela me surpreendeu. Essa mulher, decidida, tomava as suas atitudes sem pensar muito, se virou para mim e selou-me os lábios. Na ponta dos pés, ela precisou ficar, e assim que desceu, fitou-me, esperando alguma resposta. Não me contive. Eu simplesmente a beijei. De novo. E de novo. Não parávamos, não conseguíamos. Pequena, ficava na ponta dos pés, e eu a levantei pela cintura. Não conseguimos evitar essa atração, quando nos soltávamos, entreolhávamo-nos e retomávamos o beijo. Até que ela parou. Ela literalmente me empurrou, e a apenas um palmo de distância, me sussurou:
- Por que está fazendo isso?
- Isso o quê?
- Invadindo-me. Não diga que não me entendeu. Você me beijou, eu te beijei, e nem sequer nos conhecemos. Eu não poderia, eu não posso ceder assim.
- Então resista. Porque eu não consigo. Eu preciso.
- Eu não posso, não poderia me apaixonar por você, que droga.
- Por que não? Me diga. Por que não poderíamos ficar juntos?
- Eu nunca disse isso.
- Mas eu sei que não poderíamos, você viaja pra lá e para cá, vive dizendo adeus pra as pessoas que conhece, encanta e depois as deixa.
- E é exatamente por isso que não poderíamos. Se você sabia, por que perguntou?
- Porque pensei que poderia haver alguma maneira.
- E há.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Capítulo II


Saímos daquele bar e me surpreendi ao perceber que o Sol começaria à nascer em minutos, olhei o relógio e vi que passei um bom tempo conversando com aquele estranho, cujo ainda nem sabia o nome , sobre outras coisas além da música; já eram quase 6 horas da manhã. Ele subiu na moto que era dele, e indicou para que eu subisse, coloquei a minha mochila nos dois ombros e subi.
Tive que me segurar no corpo dele, achei que daria para me segurar apenas no banco, mas minha mochila pesando nas costas e a velocidade que íamos, foi preciso. Em apenas 5 minutos chegamos ao destino: ao que parecia, um prédio antigo. Saí da moto e ajeitei a mochila nas costas, e ele me apresentou o local. Era a biblioteca municipal. Ficava aberta 24 horas, naquela cidade, não era preciso um controle para os livros, pois a literatura era bem estimulada e todos tinham um respeito com bibliotecas e principalmente com os livros. Entretanto, não era possível evitar que de vez em quando um pequeno desaparecimento de um ou dois livros acontecesse. Ele deu alguns passos em direção ao prédio, mas notou que eu havia ficado para trás, deslumbrada com a beleza da biblioteca.
- Você vem? – disse se aproximando, e deu uma leve puxadinha no meu braço.
- Ah, claro. – respondi, um pouco envergonhada pela minha distração.
Por dentro, era ainda mais impressionante: livros de todos os tipos, romances, poesias, ação, aventuras, mistérios, eram de todos os tipos mesmo, cada seção possuía duas estantes inteiras com um tipo de livro. Era enorme, livros por todos os lados.
Ele pegou um livro de crônicas, e ao que parecia, já o conhecia bem. Disse que já havia terminado por ali, e perguntou-me se queria pegar algum livro. Respondi que no dia seguinte passaria aqui e escolheria alguns, pois devorava livros em um dia apenas,quando não havia algo mais oportuno à fazer. Deixamos a biblioteca, e ele me levou até a margem de um lago. Haviam alguns troncos deitados, deixados lá para servir de assento, e o lago brilhava com o reflexo do Sol, que já começava a nascer. Ele se sentou ali mesmo, naqueles troncos, e eu me sentei a sua frente, em outro tronco. Tirou da mochila que trazia, o livro, e ergueu-o para mim, eu o olhei me perguntando o que ele queria que fizesse.
- Leia – apontando para a crônica “Felicidade Clandestina” de Clarice Lispector – é um texto agradável, eu amo vir ler aqui, torna a leitura ainda mais bela sendo neste horário.
- Posso saber o seu nome? Não sei ainda...
- Ah! Nossa, eu realmente esqueci dessa parte fundamental de qualquer relacionamento – ele riu – me desculpa. Me chamo Antônio. – e sorriu sem jeito. – E você...?
- Me chamo Luna...
- É um lindo nome. Minha melhor amiga no colegial se chamava Luana, mas eu insistia em chamá-la de Luna, é mais suave, e combinava mais com ela. Depois que saímos da escola, cada um seguiu seu caminho, às vezes encontro com ela, mas cê sabe, quando você se separa de uma pessoa, perde-se toda aquela intimidade que se tinha. Crescemos, tomamos outros interesses, conhecemos outras pessoas... – ele parou por alguns segundos – e por fim, aquela amizade não consegue mais ser restaurada. O certo é deixar, e seguir em frente.
- Nunca terei um problema como esses. Viajo de cidade em cidade sozinha, não costumo conhecer muitas pessoas, nem me envolver.
- Uau. É uma vida um pouco solitária, naõ acha?
- Tem suas vantagens.
- Como o quê?
- Bom, pra começar, são lugares lindos, conhece-se várias culturas, aproveita-se de tudo um pouco de cada local. E não preciso me decepcionar com as pessoas, ou causá-las algum mal, já que não conheço muita gente.
- De certa forma... -  ele pareceu um tanto decepcionado depois de dizer que não costumo me envolver, e então tentei contornar a situação, e fazê-lo exibir aquele sorriso lindo que possuía. – Mas, pra ser sincera, você é uma das poucas pessoas que conseguiram se aproximar, e não se afastaram rapidamente. Digo, estou gostando de você. – sorri, e o olhei de uma maneira diferente, mas logo desviei.
Silêncio. Ele sorriu, mas não disse nada, apenas olhou para baixo, e pensativo, ficou desenhando com um graveto no solo meio arenoso da margem. Quando pensei em me despedir, mas até marcar um novo encontro, ele levantou o rosto e lembrou-se do que viemos fazer ali:
- Ei, acabamos nos esquecendo de ler os textos, por favor, leia o seu, em seguida lerei um também...
- Hum, tá bem. – peguei o livro e comecei – “ Felicidade clandestina”... “Ela era gorda, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. [...]”
Fui lendo e lendo, sem parar, e ele sorria bobo, sem motivo aparente para tal sorriso, e observava-me durante a leitura. Por fim, acabei, e ele aplaudiu.
- Não entendi, tudo que fiz foi ler.
- Eu sei, mas você extremamente bem, poderia recitar poesias na frente de vários, em bares, e sem problema, ganhar uns bons aplausos e elogios. Lê com alma e entonação.
- Obrigada...  – fiquei envergonhada, e para quebrar aquele clima, o convoquei para ler também – agora pode escolher o seu.
- Ah, eu já escolhi. Chama-se “O amor por entre o verde” do Vinícius de Morais, é um de meus favoritos.
- Nunca li, vamos que assim eu o conheço.
- “O amor por entre o verde”... “Não é sem frequência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. [...]”
E foi lendo e lendo, com a sua voz macia, dançava em meus ouvidos acariciando-me a face, o texto era belo, e sua leitura o fazia mais belo ainda. “É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado...”. A frase me tocou lá no fundo. Sabia que com essas viagens, abandonei minha chance de viver normalmente, ter um amor, casar-me, sabia que viajando assim, não encontraria o meu “ser verdadeiramente amado”. Olhei para Antônio, e sorri. Entendi o porquê daquele sorriso dele, anteriormente, estava sorrindo da mesma maneira agora. Eu estava gostando, estava me divertindo com ele, mal conhecera ele e já estava gostando, realmente gostando dele. O texto foi terminado, e eu pude me ouvir aplaudindo, foi involuntário. Ele me disse que já era hora de voltar para seu prédio, ficara fora o dia inteiro no dia anterior, e tinha algumas coisas para fazer. Concordei, eu já estava com sono, e precisava arrumar algumas fotos e anotações num dos meus cadernos de viagem. Ele me ofereceu uma carona até o hotel que estava, e me perguntou onde era.
- Ao lado do bar. – sorri – por isso vou lá frequêntemente.
- Ah, sim. Talvez passe por lá um dia para te encher um pouco a paciência. – riu.
- Não seria uma má ideia.
- Vamos?
Subimos na moto e me agarrei, sem hesitar, ao seu corpo, e apoiei o resto de meu corpo nas suas costas, senti sua respiração vacilar um pouco, e entendi que o incomodei, e me levantei, mas ele balançou a cabeça, e me disse apenas: - Volte.
Na portaria no hotel ele me deixou, eram 9 horas da manhã. Pensei que apenas eu sairia da moto, e me despediria com um aceno. Mas ele se levantou e caminhou em minha direção. Me assustei em pensamento, e não deixei que eles afetassem minha expressão. Ele encarava meus olhos, e antes que eu pudesse perceber, segurou minha mão, e me puxou para um beijo. Deslizei minha mão das suas costas e segurei sua nuca, e ele segurou minha cintura levemente. O beijo durou algo mais que um minuto apenas, ao passo que se intensificava, ele apertava meu corpo contra o dele, causando-me borboletas no estômago. Ao nos soltarmos, ele me olhou sem expressão definida, me pediu desculpas, despediu-se com um beijo na bochecha e andou até a moto. Sem reação, não saí do lugar até que ele desaparecesse naquela rua plana cercada por prédios e casas. Me virei lentamente, e entrei no hotel.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Capítulo I


Viajava para qualquer lugar, desfrutava de todo tipo de paisagem, degustava um pouco de cada cultura, deslumbrava-me com a quantidade de pessoas que cabiam em um bar tão pequeno. Tão pequeno, tão escuro, tão rústico, ao mesmo tempo, tão convidativo. Naquele bar, tocavam bandas de que ninguém ouvira falar, bandas alternativas com tanto tempo de estrada, e tão pouco reconhecidas. O lugar era um tipo de santuário da música: por todos os cantos, paredes, prateleiras e estantes, discos, pôsteres, objetos, panfletos e camisas eram espalhados, e quase não havia mais espaço para algo a mais, porém, sempre dava-se um jeito de uma banda qualquer deixar sua marca por ali, nem que fosse no chão, no teto, e até no banheiro.
E foi naquele bar, numa de minhas viagens mais simples, numa cidadezinha qualquer, que conheci o protagonista da melhor história que vivi. Não, não poderia ter sido uma história de amor, acredito que não tenha sido tudo isso. Foi intenso, não posso negar. Houve aquele sentimento fervoroso, que aquece até a alma mais fria, que invade todo o seu corpo até que explode num beijo. Paixão foi o que aconteceu. No meio de tanta bagunça, eu me apaixonei.
Era véspera de Natal, e apenas aos 23 anos, já não tinha ninguém para passar a data. Não era mesquice minha, eu realmente não tinha ninguém. Viver assim, viajando por todos os cantos sozinha, acompanhada apenas da própria loucura, não era lá aquelas maravilhas. Foi preciso abandonar tudo, deixar pra trás família, casa, amigos, amores, e enfim, pesos do passado. Desde  então, vem sido assim: de cidade em cidade, procurando não envolver-me com as pessoas, mas algumas vezes, acabo por me envolver. Como aconteceu na tal véspera de Natal que estava mencionando.
Apressei-me em encontrar minha mesa favorita do bar, dois lugares, perto o suficiente do balcão e do palco, num canto com boa iluminação para ler um livro ou fazer palavras cruzadas, como era de costume fazer. Não era muito de beber, em poucas situações o fazia, e não estava com cabeça para enfrentar uma ressaca em pleno Natal, pedi apenas uma coca-cola. As garçonetes já conheciam a garota que sempre se sentava naquele mesmo lugar, e numa data tão inusitada para estar sozinha, apressaram-se em perguntar:
- Não é uma data muito estranha para se estar sozinha, mocinha? – Lídia, sempre muito prestativa, trouxe-me, junto com o refrigerante, o famoso prato de peixe que lá preparavam com bastante êxito – É por conta da casa. –Sorriu.
- Sim, obrigada –agradeci  pelo peixe – mas não é por opção que estou aqui. Quer dizer, adoro este lugar, mas é o único que conheço, então é mesmo por falta de opção. – Respondi tentando parecer tão simpática quanto Lídia, mas com esse meu desajeito costumeiro, soou como grosseria. – Desculpe, não quis parecer arrogante.
- Andar sozinha assim, não deve lhe trazer um dos ares mais sociáveis que se pode ter, não se preocupe,  eu entendi de certa forma. – Como sempre fazia, despediu-se com um sorriso e um aceno, tinha mais coisas a fazer do que ouvir as besteiras que costumo dizer.
Comi aquele peixe com tanto gosto que até me subiu aquela satisfação, a música estava ótima, e naquela hora, até que não me incomodava tanto estar sozinha. Eram quase  duas horas da manhã, e eu já estava pensando em voltar para o hotelzinho que estava hospedada, mas um rapaz aproximou-se e pediu para se sentar ali. Assenti, com um sorriso torto, e ele se pronunciou:
- Não haviam muitos lugares sobrando, e este, não é uma cantada, moça, parecia-me o mais agradável. – a voz era grossa, mas era suave.
Olhei a volta, duas mulheres sentadas no balcão, ambas com cabelos sedosos, seios fartos e rostos sedutores. Mais à esquerda, três homens bem afeiçoados, bebiam e riam numa mesinha com cinco lugares. E logo em frente ao palco, uma mesa vazia. O que traria aquele homem a umlugar como esse bar, e justamente à minha mesinha, tão sem-graça, em pleno Natal? E ainda: a volta, tantas opções mais atraentes, como as belas moças e os homens, por que justo a minha companhia parecia mais agradável? No fim, não disse nada, afinal, não é sempre que um homem assim senta-se a sua frente e puxa conversa, bom, pelo menos no meu caso, não é assim. Observei-o: moreno, cabelo liso, meio jogado com um comprimento médio, olhos azuis e uma barba mal-feita que era um charme. A camisa preta, meio aberta com o peito levemente à mostra. Digamos assim, um homem um tanto atraente. Sorri, mas não arrisquei dizer algo, poderia estragar uma conversa talvez prazerosa, caso deixasse esse meu desajeito falar. Deixe que falasse algo primeiro.
- Então, você costuma vir muito aqui? – aquele homem realmente não estava me cantando?
Olhei para ele, com um ar meio debochado, ainda estava achando um pouco estranho o que ele vinha dizendo, mas tomei um ar mais natural e tentei responder normalmente:
- Venho frequentado este bar tem algumas semanas, não sou da cidade, é um dos únicos lugares que conheço, e de longe, o mais agradável.
- Gosto muito daqui, a música que tocam é a melhor parte, é bem aconchegante. – Ele não parecia se interessar diretamente em mim, estava mais interessado na conversa, talvez tenha sido por isso, deve ter achado que eu era uma pessoa boa para conversar, apenas isso. – Você gosta desse tipo de música? Digo, rock, grunge, é o seu estilo?
- É o que mais gosto, me traz paz. Parece estranho, porque é um tanto agitado, mas me acalma, a melodia, a letra, o conjunto todo traz um boa sensação. – Ele me olhou de maneira estranha. Droga, já tinha dito alguma besteira.
- Você lê pensamentos? Porque é exatamente o que acontece quando venho aqui. Eu venho aqui procurando exatamente essa sensação. – Ele sorriu. Foi um sorriso? Ele não estava rindo de mim? Poderia ser um deboche...
- Hum. Não leio. – Olhei para ele intrigada, não havia outro jeito de descobrir se era um deboche sem ser perguntar. Não tinha nada na sua expressão que comprovasse uma brincadeira, ele parecia convicto ao afirmar sobre a música. – Você está brincando comigo, não é?
- Não! Claro que não, é realmente o que disse, esse lugar me acalma. Pareceu uma brincadeira?
- Estou acostumada a dizer o que penso e acabar  julgada como esquisita. É de costume que debochem do que digo. Já não ligo, é o meu normal. Sabe? É o meu normal ser anormal. – Sorri sem jeito, estava dizendo besteiras de novo, contando da minha vida para um completo estranho.
- Você se parece demais comigo... o jeito como fala, é quase como me sinto na maior parte do tempo. Sei que parece estranho, mas posso lhe mostrar um lugar?
- Realmente é estranho. Não é uma tentativa de me levar pra cama ou algo assim, é? – Disse aquilo brincando, mas a sua resposta me surpreendeu.
- Não arriscaria perder uma moça como você na primeira noite. Eu espero só um beijo roubado por enquanto. – Ele riu. Acho que era apenas uma brincadeira. – Vamos?
Eu ri antes de responder, confesso que me assustei com essa resposta. Estaria ele interessado em mim? Não importa. Eu não pensei muito antes de aceitar, era a primeira pessoa que realmente me chamou a atenção por aqui, e acho que não faria mal algum sair para conhecer um novo lugar.